O trabalho no campo é árduo. Muitos afazeres, poucas pessoas. Atividades que exigem fisicamente do produtor. A rotina é desgastante: acordar cedo, lidar com a terra, com a enxada, ficar o dia inteiro sob um sol forte. Aliado a tudo isso, está o êxodo rural.
Com o passar do tempo, os moradores da colônia começaram a migrar para a cidade. E a mão de obra campeira ficou cada vez mais escassa. O retrato da zona rural da nossa região é a população envelhecida e a presença da mulher nos trabalhos do campo.
O produtor precisou adaptar-se a essa realidade para que o seu trabalho continuasse tendo resultados. Muitos recorreram às máquinas. Mas não àquelas da indústria tradicional, máquinas criadas por eles mesmos, ou adaptadas, de acordo com as suas necessidades.
Como uma forma de auxiliar os produtores rurais perante a essa situação que se tornava cada vez mais recorrente no campo, criou-se a primeira Mostra de Máquinas, em 1998. A ideia foi de divulgar as invenções dos produtores, de valorizar o trabalho da Agricultura Familiar, e promover a troca de informações e criações entre os agricultores e a pesquisa.
Naquele primeiro evento, que ocorreu há quase quinze anos, foram apresentados aproximadamente 130 inventos. As máquinas criadas pelos produtores tinham as mais variadas aplicações: preparo do solo, injeção de fertilizantes, transporte e movimento da produção, pós-colheita, entre outros.
Em 1998, Eliezer Itamar G. Winklerr era um dos expositores. Produtor em Pelotas, ele apresentou um suporte com moto-bomba acoplável. A invenção é utilizada para levar máquinas e equipamentos agrícolas ou fazer irrigação em pequenas áreas.
Vindo de Alfrego Wagner, em Santa Catarina, Seu Valdenésio Lauro da Silva mostrou aos visitantes daquela primeira mostra uma máquina para o cultivo mínimo adaptável a microtrator e incorporada de fertilizante. O produtor usou o eixo de uma enxada rotativa e nela anexou um disco rotativo com enxadas laterais, preparando o solo na linha de plantio e incorporando o fertilizante.
A criatividade dos produtores foi o principal destaque daquela Mostra, que oportunizou a troca de experiências entre os produtores. E assim, colaborar para um melhor rendimento do trabalho no campo.
“A Mostra teve um grande impacto, uma aceitação enorme do público. Algumas máquinas geraram o interesse da indústria tradicional, pois esse evento apresenta a necessidade dos produtores, saciada pelas adaptações feitas por eles mesmos”, relembra um dos organizadores da primeira Mostra de Máquinas, Luiz Clóvis Belarmino.
A mostra ainda impactou o campo das políticas públicas, conta Belarmino, através do programa Pronaf Mais Alimentos, do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Além de projetos de pesquisa da Embrapa voltados a essa área da agricultura.
Da Mostra de Máquinas surgiu um livro dos inventos expostos. “Máquinas para Agricultura Familiar”, o qual descreve os modelos de criação dos produtores, uma parceria da pesquisa e da extensão. Cada página contém a foto da máquina e um breve texto sobre seu uso e montagem.
A Mostra de Máquinas e Inventos da Agricultura Familiar chega a sua terceira edição. O objetivo continua o mesmo daquele primeiro evento: buscar tecnologias e informações para ajudar o produtor rural e valorizar o trabalho do campo.
Nesta edição, que ocorre nos dias 8, 9 e 10 de maio, no Centro de Eventos da Fenadoce, em Pelotas/RS, são esperados 100 expositores e suas respectivas invenções. Além de um grande público que possa prestigiar o trabalho da comunidade rural, espera-se também os agricultores familiares, que além de produzir alimento, são capazes de produzir sua própria ferramenta de trabalho.