Adubação verde beneficia o meio ambiente, o produtor e o consumidor

O uso de leguminosas na plantação dispensa a utilização de agroquímicos, recupera o solo e aumenta a produtividade

Juliana Royo
Nutrição Vegetal

A prática da adubação verde atravessa séculos. É uma herança indígena sustentável, que nutre o solo, aumenta a produtividade e é barata, mas nas últimas décadas perdeu espaço para a indústria de agroquímicos. As leguminosas, ideais para a adubação verde, têm o eficiente poder de fixar nitrogênio no solo, fazendo a sua revitalização, além de inserir fósforo, potássio e cálcio. Além dos benefícios ambientais e produtivos, a prática também apresenta vantagem econômica, uma vez que não é necessário usar corretivos no solo, adubos químicos ou qualquer tipo de insumo, o que barateia a produção do agricultor.

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— A adubação verde é uma maneira de produzir alimentos que não impacte o solo, que não contamine os recursos hídricos e que seja barata e sustentável. As leguminosas são uma família de plantas que têm uma associação simbiótica com bactérias do gênero rizóbia, que são capazes de colaborar principalmente com  a fixação de nitrogênio no solo. As leguminosas são uma verdadeira fábrica de adubo, elas ativam a vida do solo e são muito importantes para a sustentabilidade. Elas aumentam a produtividade e minimizam a utilização de insumos agrícolas, além de serem plantas fáceis de ser cultivadas — explica a bióloga Elisa Wandelli, da Embrapa Amazônia Ocidental.

As leguminosas também impedem que haja a lixiviação do solo, que é a perda de nutrientes com água da chuva, impedem a perda de nutrientes pela ação da temperatura do sol, minimizam a erosão, mantêm a umidade do solo e ativam os organismos (tanto os macrorganismos quanto os microrganismos), segundo a bióloga. Elas podem ser usadas para outras finalidades além da adubação verde como cerca viva e fonte de forrageira para alimentação animal.

Praticamente todas as espécies de leguminosas podem ser utilizadas para adubar o solo, mas algumas se destacam no desempenho desta função, especialmente as que produzem vagem (feijão, ingá, molungu, paliteira, mucuna, poerária) e a glicerídea, que não é brasileira, mas é muito utilizada na América Central, produz muita biomassa podendo ser podada até quatro vezes por ano. Ela pode produzir até cinco toneladas de biomassa para servir de adubo verde. O ingá é a leguminosa mais consagrada pela agricultura familiar, porque além de ser uma grande fonte de nitrogênio também é grande fonte de cálcio.

— Infelizmente a indústria dos agroquímicos venceu a batalha por muitos anos aqui no Brasil e infelizmente o brasileiro, durante muitas décadas, valorizou o químico ao invés do natural. É uma luta agora para tirar este pensamento que ficou enraizado pela indústria. Não só as empresas, mas a pesquisa e a extensão agropecuária, nos últimos tempos, não têm favorecido estas práticas agroecológicas que herdamos dos indígenas, dos nossos antepassados. Hoje, fazendo as pesquisas de ponta, comprovamos que realmente o adubo verde tem efeitos bastante positivos tanto na questão ambiental quanto na rentabilidade do produtor.

Números apresentados por Wandelli mostram o impacto econômico da utilização das leguminosas na plantação. Segundo ela, oito toneladas de biomassa de adubo verde substituem 411 quilos de ureia. As mesmas oito toneladas de adubo verde equivalem a 132 quilos do saco triplo, 141 quilos de cloreto de potássio e 560 quilos de calcário, utilizado para a correção de acidez do solo.

— Temos que cuidar para que a maneira como se produz alimentos no país não venha causar a degradação da qualidade de vida. O Brasil é o segundo maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Esperamos que o uso de práticas agroecológicas seja ampliada. As pessoas não querem mais comer alimento com veneno, não querem mais comer alimento que causou a devastação da floresta e a contaminação dos recursos hídricos — ressalta Elisa Wandelli.

"Oito toneladas de
 biomassa de adu-
 bo verde substituem
 411 quilos de ureia"


 Elisa Wandelli,
 Embrapa Amazônia Ocidental