Agricultor familiar compartilha experiências sobre “Roça do Futuro” em Sergipe

Outras seis unidades experimentais serão implementadas dentro da Rede de Aprendizado no território Sul Sergipano

Saulo Coelho
Agricultura Familiar

Seu Ivanilson dos Santos, conhecido como ‘Negão’ no assentamento Paulo Freire, onde vive e planta com sua mulher e três filhos, em Estância, no Sul Sergipano, está exultante. “Estou plantando a ‘Roça do Futuro’”, comemora.  E tem diversas razões para isso.

Ele participou da oficina “Redes Sociais de Aprendizado para o Desenvolvimento Agrícola do Território Sul Sergipano”, em maio deste ano, e saiu de lá entusiasmado. Dias depois, no início de junho, ele foi o primeiro agricultor a instalar em sua propriedade uma área experimental.
Numa área de 200 m², Negão e sua família plantaram espécies florestais, como aroeira da praia, castanha do Pará, jenipapo, jatobá e sucupira; além de frutíferas, como açaí, caju, goiaba e manga; leguminosas, a exemplo de feijão comum, feijão-de-porco e gliricídia; e as hortaliças alface, couve e quiabo. Tudo plantado e manejado à luz dos conceitos de ‘jardinagem florestal’ e ‘berço ideal’, desenvolvidos pelo pesquisador Ernst Goetsch em parceria com o engenheiro agrônomo e consultor baiano Henrique Souza, apresentados por este último na oficina.

Os resultados na área plantada são tão surpreendentes para Negão e o pesquisador Edmar Siqueira, da Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju, SE), coordenador do projeto das Redes de Aprendizado, que eles decidiram compartilhar com mais agricultores da região.

No dia 8 de setembro, membros do MST, da Federação dos Trabalhadores Agrícolas de Sergipe (Fetase), de associações de agricultores, representantes da Embrapa e pequenos agricultores de comunidades vizinhas visitaram o lote da família de Negão. O objetivo, segundo Edmar, foi a troca de experiências para consolidação de conceitos e intercâmbio de informações, principalmente em relação ao manejo das áreas, com informações sobre o plantio, como espaçamento, adubação e cobertura.

Encantamento

O encantamento se espalhou como magia sobre os olhos dos visitantes. A exuberância do milharal, com pés verdes cintilantes, em meio à mandioca, mamona, quiabo e outras culturas não menos saudáveis e vistosas, deixou todos admirados. Tudo plantado em sistema agroflorestal com sucessão ecológica de espécies e concentração de fertilidade em ‘berços ideais’.

“Este milharal parece mágico!”, exclamou um dos agricultores ao ver a área plantada.

A admiração foi ainda maior ao saber que as culturas foram cultivadas tardiamente, após o início das chuvas, num solo considerado muito pobre por todos que plantam ali, e sem qualquer adubação química. “Aqui tudo é orgânico e reciclado dentro do próprio sistema”, informa Ivanilson, com ar de orgulho.

E Negão reforça e explica o termo com o qual batizou a nova abordagem. “Aqui é a ‘Roça do Futuro’ porque, com essa diversificação, sempre tem uma colheita por vir, o tempo inteiro. Já colhemos hortaliças, vamos tirar o milho e por aí vai. E já estamos preparando outra área maior no nosso lote para o ano que vem”, adianta, confiante, mostrando o caderno em que anota tudo sobre as culturas e seu manejo. “Quando eu morrer, tudo vai estar documentado para que minha mulher e filhos continuem essa prática”, complementa.

Joel Oliveira, agricultor da cidade vizinha Santa Luzia do Itanhy, renovou sua empolgação para plantar. “Participei da oficina em maio, mas não estava muito animado. Mas isto aqui está lindo. Eu ia fazer diferente no meu lote, mas agora que vi o resultado de Negão, vou copiar direitinho, ainda mais porque o solo da minha área é mais fértil”, revelou. 

Diógenes Silva é de Cristinápolis, na divisa com a Bahia, e não escondeu a euforia. “Isto aqui é a prova do ditado ‘Em se plantando, tudo dá’. E não precisa sequer agredir a terra e a saúde com agrotóxicos. Já estou começando a aplicar as técnicas na minha terra e tenho certeza que terei bons resultados”, afirmou.

Abordagem

Para Edmar Siqueira, a troca de experiências diretamente com os produtores é o que realmente fortalece as redes de aprendizado nos territórios. “Deste modo, a transferência de conhecimentos é automática, acontece durante todo processo, e não apenas em momentos estanques. E é fundamental continuar trocando experiências, porque os conceitos não estão prontos nem são definitivos. Temos de construir e reconstruir continuamente, de maneira participativa”, explica.

O pesquisador da Embrapa Tabuleiros Costeiros acredita que esta seja uma nova forma de pensar e agir em agricultura familiar, e ressalta a importância da abordagem dentro do recorte dos Territórios da Cidadania, praticada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). “O território e base fundamental para construção de políticas de desenvolvimento. Nele já se encontram amadurecidos os mecanismos institucionais de construção participativa e controle social no âmbito dos colegiados territoriais”, reforça.

A simplicidade, segundo Edmar, deve ser o tom na abordagem no avanço da Rede. “Vamos compreender cada vez mais o caminho que estamos percorrendo. Estamos saindo de uma cultura de monocultura para outra de máximo de diversidade. Este novo jeito é complexo, mas, não é difícil. Os princípios fundamentais são: diversidade, cobertura do solo e podas” conclui.

Outras seis unidades experimentais serão implementadas dentro da Rede de Aprendizado no território Sul Sergipano, e uma das áreas servirá de campo de pesquisa para subsidiar a dissertação de mestrado da engenheira florestal Marília Fontes pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).