Agricultura convencional X orgânica: há um sistema intermediário entre elas?

A lógica maior é o emprego desses insumos em larga escala para se obter volumes cada vez maiores para exportação. Mas esbarramos nas novas exigências dos mercados internacionais, que não abrem mão das garantias de um alimento saudável

Lucio Pereira Santos, pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental
Agricultura Sustentável

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A sobrevivência do ser humano do século XXI não pode prescindir da agricultura moderna, responsável pela produção de alimentos. Com o acelerado aumento da população mundial, a produção em grande escala entrou em pauta e passou a balizar o tema produção de alimentos, contrapondo-se ao extrativismo e à agricultura de pequena escala, frequentemente conhecida como agricultura familiar.

Nas últimas décadas, tem sido observada uma grande dinâmica das populações que, cada vez mais, migram para os centros urbanos, em busca de melhores oportunidades de trabalho e de qualificação profissional. Visando abastecer todo esse contingente de pessoas, a agricultura se modernizou, passando a empregar tecnologias cada vez mais sofisticadas, além de ter também intensificado o uso de insumos, especialmente de fertilizantes e de defensivos agrícolas que, se por um lado, asseguram a produção e a produtividade dos alimentos, por outro, trazem como efeitos colaterais os riscos de elevação de resíduos tóxicos nos alimentos, as contaminações do solo, água e ar, elevando sobremaneira os riscos de intoxicações dos animais e dos seres humanos.

Nas condições brasileiras, a agricultura de larga escala passou a ser o principal setor da balança comercial que tem garantido superávits comerciais, motivo pelo qual vem recebendo grandes incentivos do governo federal. Esse fato contribui sobremaneira para as intensificações do uso de insumos nas lavouras, especialmente naquelas destinadas à produção de commodities para exportação.

Por outro ângulo desta análise, destacamos aqui dois pontos centrais e de extrema relevância: a) o fato de uma vasta gama de produtos alimentares que abastecem a população interna de nosso país ser produzida pela agricultura familiar; e b) o rigor do mercado externo no sentido de não mais permitir a aquisição de alimentos com contaminantes de qualquer natureza. Esses aspectos, especialmente o segundo, têm modificado as relações comerciais internas e externas do nosso país, exigindo do produtor, bem como dos demais atores implicados nos diversos elos da cadeia produtiva, uma maior profissionalização, representadas por profundas modificações no emprego das técnicas e condutas em todas as fases e segmentos da produção de alimentos, com o objetivo maior de garantir a qualidade final do produto, não apenas sob o ponto de vista de sua qualidade intrínseca (seu balanço nutricional, por exemplo), mas, principalmente, no que tange à sua inocuidade à saúde do consumidor. Isso equivale a dizer que o mundo despertou para a necessidade de produzir alimentos “limpos”, estendendo o conceito de qualidade ao sentido mais amplo da palavra, que agora inclui também a segurança de se adquirir e consumir um alimento sem contaminantes químicos, físicos e microbiológicos.

Considerando que existe um grande mercado mundial para se realizar negócios por meio das exportações e também que os insumos agrícolas elevam bastante a produtividade das lavouras, a lógica maior é a de fazer prevalecer o emprego desses insumos em larga escala, para se obter volumes físicos cada vez maiores para exportação. Por outro lado, esbarramos nas novas exigências dos mercados internacionais, que não abrem mão das garantias de um alimento saudável e inócuo à saúde.

Ademais, a agricultura de escala familiar, cujo volume produzido é balizado pelos limitados recursos dos fatores de produção (terra, capital e trabalho), tem uma vocação natural para o emprego de um sistema alternativo de produção de alimentos, representado pelo aproveitamento e pela reciclagem de resíduos de outras atividades da propriedade, o que a torna uma candidata em potencial para adotar o Sistema Orgânico de Produção.

É importante ressaltar que, de modo geral, o Sistema de Produção Convencional proporciona uma produtividade muito acima daquela que se consegue com o Sistema Orgânico. E isso se deve, basicamente, a alguns fatores que podemos destacar: fertilizantes químicos concentrados altamente solúveis, defensivos agrícolas que controlam pragas, doenças e plantas invasoras, entre outros. Como mencionado anteriormente, o emprego desses insumos trazem também em si os indesejáveis riscos de contaminação, apesar de assegurarem maiores rendimentos das colheitas.

Sabemos que as obtenções de produtividade elevada por meio do Sistema Orgânico que sejam similares às conseguidas pelo Sistema Convencional ainda não são generalizadas, sendo aquelas observadas em alguns casos, com algumas culturas específicas, cujos estudos evoluíram com as experiências e pesquisas. Além da necessidade de se conseguir elevadas produtividades, tem-se o desafio da conquista de estabilidade desses rendimentos, ao longo dos anos. Contudo, para praticamente todas as culturas comerciais existe esse potencial para se adotar, no futuro, apenas o Sistema Orgânico.

Por se tratar de dois sistemas que possuem características distintas e muitas vezes extremas, o Sistema Convencional oferece dificuldades e limitações para ser convertido para o Sistema Orgânico por motivo da necessidade de se adotar medidas radicais, com adaptações de tecnologias muitas vezes ainda não validadas e que não possuem eficiência e eficácia comprovadas.

Surge, então, uma terceira via, um outro sistema que é altamente aceito em nível mundial, possuindo inclusive certificado de qualidade, cujo mercado diferenciado absorve os produtos agrícolas assim produzidos, que é o Sistema de Produção Integrada. Trata-se de outra alternativa altamente difundida nos países do continente europeu e em outros mercados, e que vem aumentando sua participação no comércio mundial.

Basicamente, o Sistema de Produção Integrada, ao contrário do Sistema Orgânico, permite o emprego de insumos químicos, porém com rígido controle e racionalidade, exigindo monitoramento e permitindo a rastreabilidade da produção em todas as suas etapas.

Podemos afirmar que o Sistema de Produção Integrada atua como um elo entre o Sistema de Produção Convencional e o Sistema de Produção Orgânico. Nesse sentido, todos os avanços que forem conquistados pela pesquisa para o aprimoramento do Sistema de Produção Orgânico certamente contribuirão para tornar o Sistema Integrado cada vez mais limpo e independente dos insumos químicos, deslocando-o na direção do Sistema Orgânico de Produção.

Levando-se em consideração a definição tradicional, todos os alimentos seriam considerados orgânicos, uma vez que o termo “orgânico” significa: “de, relativo a, ou derivado de organismos vivos”. Entretanto, em linguagem agronômica, “orgânico” significa um alimento que foi cultivado sem o emprego de produtos químicos com ações inseticidas, fungicidas, nematicidas, herbicidas, antibióticos, ou qualquer outro princípio químico para controlar pragas e doenças, em geral, que são peculiares à cultura em questão. Alimento orgânico também exclui o uso de fertilizantes químicos e preconiza a não utilização de organismos geneticamente modificados. Esse alimento também não permite o emprego de aditivos alimentares químicos.

Na Tabela 1, apresentamos as comparações das principais características que diferenciam o Sistema de Produção Convencional do Sistema de Produção Orgânico, e, na Tabela 2, a comparação é feita entre o Sistema de Produção Convencional e o Sistema de Produção Integrado.

Tabela 1. Comparação entre o Sistema de Produção Convencional e o Sistema de Produção Orgânico
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Tabela 2. Comparação entre o Sistema de Produção Convencional e o Sistema de Produção Integrado
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