A Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA - Regional Centro Leste) e o Centro Avançado da Pesquisa Tecnológica do Agronegócio de Cana (APTA/IAC) promoveram, no final do mês de maio, o VIII Workshop Agroenergia: matérias-primas. Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) apresentaram trabalhos relacionados a manejo fitossanitário, impactos da mecanização no sistema de produção de cana-de-açúcar e possibilidades de retirada de palhada sem causar prejuízos à produtividade do canavial.
Simone Prado, responsável técnica do Laboratório Costa Lima da Embrapa Meio Ambiente, ministrou palestra no painel Manejo Fitossanitário no contexto das pragas exóticas, com a apresentação: “Laboratório de Quarentena Costa Lima, ferramenta de prevenção de pragas exóticas”, onde também foram discutidos os resultados oficiais sobre a presença de Helicoverpa armigera em São Paulo, com levantamentos técnicos e monitoramento dessa praga.
Após a mesa redonda, foi debatida a vulnerabilidade do Brasil na entrada de pragas exóticas, assim como o impacto dessas pragas na economia brasileira. Simone apresentou o histórico e o papel do Laboratório de Quarentena, assim como do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) na entrada de organismos exóticos e na produção de alertas de pragas quarentenárias.
“O ponto mais importante da palestra foi sobre apresentação de como a Caravana Embrapa de alerta às ameaças fitossanitárias, no caso Helicoverpa armigera, atuou de forma a resgatar o Manejo Integrado de Pragas (MIP), ou seja, a integração das diversas técnicas de controle para manter a população da praga abaixo do nível de dano econômico tais como o controle cultural, biológico, químico e a também tecnologia de aplicação utilizado nos controles”, enfatiza a pesquisadora.
Simone também abordou outras ações realizadas, além da Caravana Embrapa, como o assinatura do protocolo de intenções para cooperação científica, entre o secretário de defesa Agropecuária do Mapa, Rodrigo Figueiredo e o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, o qual formaliza a parceria na condução do Programa Nacional de Melhoramento Genético Preventivo (Agropreventivo), que visa o desenvolvimento de variedades de plantas com resistência genética a pragas quarentenárias de alto risco para a atividade agrícola, antes que elas efetivamente entrem no território brasileiro, com consequências negativas para a competitividade do agronegócio nacional, a exemplo de barreiras fitossanitárias.
“Para mim foi gratificante saber que a Caravana quebrou tabus e nivelou conhecimentos, pois realmente o mais importante é somar esforços e não sobrepor esforços", ressalta a pesquisadora.
Já a equipe do Projeto SustenAgro (Sustentabilidade na Agricultura) apresentou dois trabalhos. Katia Evaristo de Jesus, pesquisadora, Catiana Brumatti Zorzo, doutoranda e Sérgio Torquato (APTA/UPD Tietê) demonstraram os impactos da mecanização no sistema de produção de cana-de-açúcar em uma região tradicional de cultivo da cultura e uma área de expansão (Piracicaba, SP e Quirinópolis, GO, respectivamente) e a proposta de caracterização dos sistemas de produção de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo. Esse estudo é resultado da dissertação de mestrado de Bruno Oliveira Cardoso, realizado na Unidade, sob orientação da pesquisadora.
“Esses trabalhos demonstram que analisar os sistemas de produção de cana-de-açúcar e as mudanças necessárias para os novos ambientes de produção pode ser a chave para definir os instrumentos para apoiar os produtores nesse momento crítico para o setor”, acredita Katia.
Nesse encontro também foram apresentados os resultados de pesquisas coordenadas pela pesquisadora Nilza Patrícia Ramos, em colaboração com outras unidades da Embrapa, APTA e IAC.
A palestra “Quanto de palhada é possível retirar sem prejuízos à produtividade do canavial?” foi proferida por Cristiano de Andrade, também pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.
Com a colheita mecanizada da cana-de-açúcar, ou seja, sem despalha a fogo, permanecem sobre o solo quantidades de palhada entre 10 e 30t/ha (base seca), o que potencialmente pode representar benefícios agronômicos e ambientais no sentido de aumento da sustentabilidade de produção da cultura.
Há interesse, entretanto, no recolhimento total ou parcial da palhada para geração de energia na usina, o que concorre com a quantidade que permaneceria no campo. “A definição da quantidade de palhada que deve permanecer no campo passa por questões econômicas, de logística e técnicas, esta última foco de pesquisas em rede coordenadas pela Unidade”, explica Andrade. Os resultados parciais evidenciam a interação entre níveis de palhada (0, 25, 50, 75 e 100% do total produzido) e o ambiente, principalmente água no solo, cujos efeitos no desenvolvimento da cana podem ser importantes, a depender da distribuição de chuvas no ciclo da cultura. De modo geral, a palhada sobre o solo proporcionou menor velocidade de secamento do solo, o que pode ser fundamental na garantia de produtividade em anos com restrições hídricas mais severas.
Conforme os pesquisadores, “a ciclagem de nitrogênio a partir da palhada foi outro assunto destacado dentre os resultados obtidos até o momento. Em média, a decomposição da palhada de cana em um ciclo de soqueira alcançou 60% do total depositado com a colheita mecânica e, nesse mesmo período, a relação C/N foi reduzida de 100/1 até próximo a 30/1”.
“Teoricamente, é a partir da relação C/N de 30/1 que se espera uma mineralização líquida de N, com aumento da disponibilidade desse nutriente no solo. De fato, foi possível observar certa imobilização de nitrogênio nos primeiros 4 a 5 meses após a colheita da cana, o que reforça a idéia de ganhos substanciais na fertilidade dos solos e nutrição da cana somente com a sucessão dos ciclos de soqueira”.