Algodão contribui para 5% do biodiesel brasileiro

Planta é a segunda oleaginosa mais importante do Brasil e tem teor de óleo que pode chegar a 26%, dependendo da cultivar

Juliana Royo
Algodão

O algodão é a terceira matéria-prima mais importante para a produção do biodiesel nacional, fica atrás apenas da soja e do resíduo de suínos. O óleo de algodão contribui com 5% dos dois bilhões de litros de óleo que o Brasil usa hoje para a produção de biodiesel. A quantidade de óleo presente na semente do algodão é baixa em relação a outras culturas, com uma média de 14%, mas a Embrapa Algodão desenvolveu a cultivar BRS Arueira, em parceria com a Fundação Goiás, que tem 26% de óleo. Para cada litro de óleo, são necessários 12 quilos de algodão. Apesar do baixo potencial de óleo, a vantagem do algodão em relação às outras culturas é o preço. O custo de produção para conversão em biodiesel é um dos mais baratos que existem, além de existirem pesquisas para se desenvolver mais variedades com alto teor oleico.

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— O custo para produzir biodiesel a partir do algodão é um dos mais baratos no mundo. Apesar do teor de óleo ser baixo, as variedades mundiais a gente estima que se plante por ano 3.800 cultivares de algodão em 101 países, em uma área média, de 1950 até hoje, de 34 milhões de hectares, uma produção de 25 milhões de toneladas de fibra e em torno de 40 milhões de toneladas de grão, o que dá uma quantidade muito grande de óleo. O óleo de algodão é mais barato do que o óleo de soja, muito mais barato do que o óleo da mamona, muito mais barato do que o óleo de girassol. Já achamos materiais com até 35% de óleo, mas com comprometimento de fibra. O grande desafio, hoje, é ter uma variedade com equilíbrio que produza mais óleo com qualidade de fibra — explica o pesquisador Napoleão Beltrão, chefe da Embrapa Algodão.

Assim como outras culturas, o algodão tem outra desvantagem, além do baixo teor de óleo, que é a contaminação do gossipol, um pigmento presente na semente do algodão que atrapalha o refino para biodiesel. Mas Beltrão diz que não existe óleo perfeito, que todos os cultivos têm as suas desvantagens e que, mesmo com este empecilho, o algodão continua sendo a matéria-prima mais barata para a produção do biodiesel.

— O óleo de algodão é um óleo equilibrado, não existe óleo ideal ou perfeito para o biodiesel porque cada um deles tem as suas desvantagens. O dendê, por exemplo, tem que ser processado no mesmo dia, porque a acidez é muito alta e pode chegar a até 12%. Já o óleo de soja oxida com facilidade (em algumas horas ele já entra em processo de degradação e precisa de antioxidantes), o gergelim também tem os seus problemas, o girassol tem um pouco de cera dentro, o pinhão-manso tem substâncias que atrasam a formação do biodiesel e o algodão tem a desvantagem do gossipol, mas é um excelente óleo, não só para a alimentação humana, mas também é usado com domínio tecnológico — diz Beltrão.

Beltrão lembra que o algodão é uma das principais commodities do mundo, veste 43% da população mundial, é a quarta maior oleaginosa do mundo, e é uma das cadeia de mercado mais importantes do mundo, perdendo apenas para a indústria automobilística e de petróleo. Segundo ele, o Brasil pode se beneficiar muito com este novo mercado porque é o país ideal para atender à expansão internacional da cultura.

— O Brasil é o único país que ainda pode expandir a sua área de cultivo em 100 milhões de hectares. O potencial nacional é imenso, nós temos área, temos tecnologia, temos a maior produtividade de algodão do mundo, com 1.600 quilos por hectare, o que é quase duas vezes a média dos EUA, é maior do que a média australiana e do que a israelense — acredita o pesquisador.

"Brasil é único país
 que ainda pode ex-
 pandir sua área de
 cultivo em 100 mi-
 lhões de hectares"


 Napoleão Beltrão,
 da Embrapa Algodão