Alhos livres de vírus são mais nutritivos

Telados de proteção devem ser construídos distantes de lavouras para manter a sanidade das plantações e não contaminar sementes

Breno Fonseca
Manejo

Há cerca de 20 anos, o mercado interno era abastecido em 90% com alho exclusivamente brasileiro e gerava 180 mil postos de trabalho. Hoje, são 80 mil trabalhadores produzindo apenas 30% do que é consumido no país. Essa queda foi um fator fundamental para o projeto de elaboração de alhos livres de vírus, iniciado em 1992 pela Embrapa Hortaliças em parceria com a Associação Nacional dos Produtores de Alho (ANAPA), que vem incentivando e oferecendo cursos a produtores rurais para aumentar a cultura.  

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Segundo Francisco Vilela Resende, pesquisador da Embrapa Hortaliças, o trabalho já é realizado nas principais regiões produtoras de alho do Brasil, entre as quais estão os Estados da Bahia, Rio Grande do Sul, Goiás e Minas Gerais. Em 2002, o material foi introduzido em pequenas propriedades do oeste baiano em caráter experimental. Trocando as sementes degeneradas que usavam em suas plantações, os agricultores aumentaram a produção de 4 a 5 toneladas para até 15 toneladas por hectare. No mesmo Estado, proprietários rurais se reuniram e construíram uma estufa de 180m². Uma evolução no projeto, que aconselha telados de 18m².  

– Normalmente, as pessoas ligam procurando onde comprar sementes livres de vírus. Nessas regiões, já temos produtores que já podem eventualmente fazer a venda. A Embrapa, dependendo do ano, até fornece as cultivares para iniciar a produção. No caso dos telados coletivos, as associações ficam como guardiãs da semente e vai distribuindo – ressalta Francisco Vilela, que comenta ainda que o projeto foi concretizado em três fases. 

Durante a primeira parte, foram selecionadas as principais variedades de alho usadas no país, identificados os principais vírus que afetam a cultura e desenvolvidos antissolos específicos de cada vírus. Já na segunda, foi realizada a indexação do material obtido através das técnicas de cultivo de ápices caulinares verificando se os materiais estavam realmente desinfectados. Em casas de vegetação, telados protegidos para evitar a entrada de possíveis contaminadores, estoques de plantas saudáveis foram mantidos com a utilização de substratos esterelizados. De acordo com Francisco Vilela, os telados mantém os produtores independentes da Embrapa, pois podem eles mesmos multiplicar seus materiais.  

– Inicialmente não existe o trabalho em cima do material genético. Pegávamos as cultivares e fazíamos a limpeza viral. Porém, de cada ápice meristemático, gerávamos uma população. Por isso que o projeto foi demorado. Tem que pegar um dente de alho, retirar o ápice, fazer o cultivo in vitro, gerando um bulbinho que estando livre de vírus gera uma população de plantas, o que chamamos de clone. De cada cultivar, hoje temos na Embrapa vários clones livres de vírus. Estamos iniciando um processo de seleção, levando-os para o campo e fazendo avaliação agronômica – salienta Francisco. 

Entre os agentes infecciosos mais presentes na cultura do alho estão os potyvirus, os carlavirus e allexivirus. Os dois primeiros são transmitidos por pulgões, que, apesar de não serem pragas da cultura, visitam alimentam-se de diversas outras espécies e acabam infectando as plantações de alho. Já os allexivirus chegam através de ácaros. É justamente por isso que o produtor rural deve se atentar para as telas antiafídicas e para o isolamento dos campos de multiplicação do alho semente em até 50 metros de outras lavouras comerciais. 
 

Semana do Alho Roxo

Entre os dias 29 de novembro e 5 de dezembro, a ANAPA e o Grupo Pão de Açúcar promoveram, em Brasília, a Semana do Alho Roxo Brasileiro, que ofereceu a consumidores informações que foram desde a origem do alho à sua composição nutricional, passando pela melhor forma de escolha e armazenamento, sustentabilidade e, também, políticas públicas e privadas associadas ao setor alheiro exclusivamente nacional. Rafael Jorge Corsino, engenheiro agrônomo e presidente da ANAPA, destacou que o consumidor deve sempre exigir das redes de supermercado que o alho roxo esteja separado do alho branco, pois um dente do produto nacional equivale a cinco dos exportados chineses, com 30% a mais de nutrientes.  

–  A Semana chegou para ficar. Tivemos vários pontos que surpreendem, como o fato de a cultura alheira ser a que mais emprega mão de obra por hectare e a diferença nutricional do nosso alho para o estrangeiro. O nacional contém mais alicina que o chinês. A alicina tem propriedades antioxidantes e antibióticas, combate bactérias, fungos e vírus. Por isso, o consumo de três a quatro dentes de alhos crus por dia é indicado. Além disso, um alho de boa qualidade ativa a digestão e ajuda a eliminar toxinas através da pele – completa Rafael Corsino.  

Para mais informações, basta entrar em contato com a Embrapa Hortaliças pelo telefone (61) 3385-9000 ou com a Associação Nacional dos Produtores de Alho pelo (61) 3321-0821.