Baculovírus: uma tecnologia em desuso

Boa alternativa em sistemas de produção orgânicos

Fernando Bonafé Sei, Rodrigo Daniel Ribeiro e Maria Silvia Pereira Leite
Sanidade Vegetal

A lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis) era e ainda é considerada uma das pragas-chave da cultura da soja no Brasil, sem controle a praga pode causar desfolha total em grandes áreas, porém esta é de fácil controle sendo possível utilizar inseticidas químicos, com os quais é suscetível a diversos grupos, e biológicos. O uso do Baculovírus foi um exemplo de controle biológico eficiente para lagarta da soja, diversas empresas comercializaram este produto e a Embrapa incentivou o uso desta tecnologia. O controle pelo Baculovírus ocorre entre 7 a 10 dias após a aplicação, quando é possível coletar as lagartas infectadas e mortas na lavoura, que podem ser utilizadas como matéria prima para produção do Baculovírus. Outras formas de controle biológico também foram e são utilizadas para controle desta praga como o Bacillus thuringiensis ou a vespinha Trichogramma pretiosum que parasita os ovos da lagarta da soja em sua fase larval. No campo também existe o controle natural que é realizado pelo fungo Nomuraea rileyi causador da doença branca, porém a aplicação de fungicidas reduz a incidência deste fungo na população das lagartas no campo, favorecendo o aumento da população.

 

Os produtores de soja têm observado uma elevação na infestação de lagartas nos últimos anos e mudanças em relação às espécies que atualmente atacam a cultura. Com essas mudanças, outras espécies da praga têm aumentado a sua importância, fazendo com que a lagarta da soja perca o seu posto de principal preocupação. As espécies como as falsas-medideiras (Pseudoplusia includens e Trichoplusia nii), lagarta-enroladeira (Omiodes indicata), Spodoptera frugiperda e Spodoptera eridania, lagarta da maçã-do-algodão (Heliothis virescens) são hoje pragas mais preocupantes do que a Anticarsia gemmatalis, principalmente porque os controles no campo são difíceis de serem realizados, devido aos hábitos dessas lagartas dificultarem a ação do inseticida.

O controle dessas novas espécies de lagartas envolve uma série de ações, que estão inseridas no Manejo Integrado de Pragas. Estas medidas são iniciadas antes do plantio da soja, com uma vistoria a campo, observando-se a presença de pragas na superfície e interior do solo. Outras práticas são adotadas, como a dessecação antecipada, tratamento de sementes e o monitoramento antecipado da população, que pode ser realizada de forma visual e com o método do pano-de-batida, com o objetivo de determinar o nível populacional da praga e iniciar o controle com a utilização de inseticidas.

Com o uso desses métodos de controle para as novas espécies de lagartas na cultura da soja, o controle especifico para a Anticarsia gemmatalis utilizando o Baculovírus tornou-se desnecessário. Isto devido aos métodos adotados para o controle das outras lagartas serem eficientes para o controle da Anticarsia gemmatalis, sendo que o contrário não é verdadeiro, ou seja, o Baculovírus não consegue controlar as outras lagartas que atualmente tornaram-se pragas mais importantes para a cultura. Muitas empresas já não produzem mais o Baculovírus comercialmente, principalmente pela baixa demanda do mercado e pela falta de matéria prima, porque o material utilizado para a produção são as próprias lagartas infectadas e coletadas na lavoura, sem essa matéria prima vinda do campo, uma alternativa seria a criação em laboratório o que atualmente é inviável economicamente para as empresas.

Os produtos como fungicidas, herbicidas e inseticidas químicos ou biológicos sempre estão sujeitas ao desuso pelo surgimento de novas tecnologias mais eficientes ou novas pragas que necessitem modificações no manejo da cultura. O Baculovírus é um grande exemplo de uma tecnologia eficiente, seletiva e biológica que infelizmente pelo surgimento de outras pragas e métodos de controle tornou-se ultrapassada e cada dia menos utilizada pelos agricultores, porém continua sendo uma boa alternativa em sistemas de produção orgânicos ou onde a lagarta de soja ainda é a principal praga.