O Rio de Janeiro sediou a 3ª Conferência Internacional sobre Biocarvão, principal evento mundial sobre o tema, entre os dias 12 e 15 de setembro. A jornalista Juliana Royo, do Portal Dia de Campo, conversou com alguns dos especialistas mais importantes do mundo sobre ciência do solo, que fazem um balanço do evento e falam sobre os desafios e caminhos da pesquisa sobre o biocarvão. A seguir, entrevista com o pesquisador austríaco e doutor em ciência do solo Winfried Blum, professor da Universidade Federal de Viena, na Áustria, e integrante da Confederação Européia de Sociedades de Ciência do Solo (ECSSS).
Quais foram os destaques do evento e que caminhos esta terceira conferência aponta?
Winfried Blum - Muitas áreas se preocupam com a terra preta de índio porque é um patrimônio nacional e com importância para o mundo inteiro e porque é o primeiro caso conhecido na história em que o ser humano fez o seu próprio solo, em condições precárias, para manter a vida. Sem esta terra preta de índio, a região amazônica não teria tido um desenvolvimento populacional e cultural. Tem um grupo muito forte de pesquisa no Brasil, dentro da Embrapa, principalmente a Embrapa Solos. Eles estão estudando diversas formas de manejo para melhorar os solos agricultáveis no País. Os dois aspectos principais deste encontro são melhorar a fertilidade dos solos e combater as mudanças climáticas.
Não vimos nas palestras muitos estudos efetivos sobre como o biocarvão pode aumentar a produtividade agrícola. O biocarvão tem este poder?
Blum - Sim, porque o carvão vegetal pode melhorar características físicas, químicas e microbiológicas dos solos. O carvão pode fixar água e liberar lentamente para as raízes das plantas. Mas isso só é possível com certo tipo de carvão, então a pergunta deste encontro foi como caracterizar este biocarvão no sentido de podermos dizer que tipo de biocarvão serve para que tipo de solo. Um carvão para acumular mais água, um carvão para fixar e liberar nutrientes para as raízes e outro para estimular a atividade microbiológica no solo como nitrogênio e fósforo.
Ainda não existe um consenso para dizer em quanto esta produtividade poderia ser aumentada?
Blum - Existem muitos ensaios, mas ainda não podemos distinguir entre causa e resposta exatamente. Só dá pra medir se, após a aplicação de biocarvão, tem efeito ou não. Precisamos saber o porquê deste efeito, se é na água, nos nutrientes ou sobre a atividade microbiana. Um problema que nós percebemos nesta conferência é que falta uma classificação deste tipos de biocarvão. Pode pegar madeira, pó de serra, bagaço de cana e outros materiais que não têm uso direto na agricultura e produzir biocarvão através do processo de incineração a altas temperaturas. A qualidade do produto depende do material de origem e também do processo que produz este biocarvão e ainda não existe uma classificação clara entre os vários tipos de biocarvão. O agricultor não está interessado nos resultados daqui a 100 anos ou em combater as mudanças climáticas; está interessado em um resultado eficiente no solo e melhorar a produtividade. É precisar focar os estudos para fins bem definidos na agricultura. A gente sabe que a primeira questão de um agricultor não é a questão das mudanças climáticas e sim a de obter mais produção.
O Brasil está prestes a se tornar o maior produtor de alimentos de mundo. Especialistas acreditam que o país conquiste a liderança até 2020, mas dez anos é pouco tempo para as pesquisas científicas. Na próxima década, quando o Brasil for o maior produtor do mundo, os agricultores brasileiros poderão contar com o biocarvão para aumentar a fertilidade dos solos?
Blum - Estou certo que sim. Só temos que começar a focar a nossa pesquisa de forma certa para definir o que é preciso na agricultura e não de uma forma nebulosa. Estes encontros ajudam a definir melhor as linhas de pesquisa futuras para chegar a este ponto. Pode ser que vamos detectar que o biocarvão não serve de forma eficiente para certos fins que nós estamos estudando. Temos que ter cuidado porque nem tudo que serve para um produtor de biocarvão é bom para um agricultor. A pesquisa é responsável por este julgamento. Ajudar verdadeiramente o agricultor é uma coisa séria para a pesquisa.
Já se sabe durante quanto tempo exatamente esse carbono fica retido e qual é a capacidade do solo de armazenagem?
Blum - Infelizmente ainda não. Por enquanto só podemos tirar certas conclusões baseados na terra preta de índio, que foi criada há quase seis mil anos. Estes solos foram se formando ao longo de muito tempo e nós gostamos de ter resultados em curto prazo. Precisamos pesquisar ainda mais a terra preta de índio e, ao mesmo tempo, definir novas linhas para o biocarvão. Temos que ficar atentos para não divulgar dados que não servem verdadeiramente ao agricultor.
O que o senhor espera da próxima conferência internacional sobre biocarvão, que vai acontecer daqui a dois anos?
Blum - Gostaria de ver pesquisas mais aprofundadas, estudando mais a relação causa-efeito, analisar quimicamente o biocarvão, pesquisar todos os efeitos que a aplicação do biocarvão teve na planta. Isto ainda não foi pesquisado suficientemente. Houve muitos ensaios, foi colocado o biocarvão no solo, aplicaram com trator, semearam a planta e mediram a qualidade da safra, mas isso não é suficiente. A pesquisa precisa ser muito mais ampla e, ao mesmo tempo, mais focada.