Biocarvão: técnicas devem ser adaptadas a cada tipo de solo

Johannes Lehmann, professor da Universidade de Cornell, nos EUA, fala sobre desafios e perspectivas que vão orientar as próximas pesquisas com biocarvão

Juliana Royo
Nutrição Vegetal

O Rio de Janeiro sediou a 3ª Conferência Internacional sobre Biocarvão, o principal evento mundial sobre o tema, do dia 12 ao dia 15 de setembro. A jornalista Juliana Royo do Portal Dia de Campo conversou com alguns dos especialistas mais importantes do mundo sobre ciência do solo, que fizeram um balanço do evento e falaram sobre os desafios e caminhos da pesquisa sobre o biocarvão. A seguir a entrevista com o doutor em ciência do solo Johannes Lehmann, professor da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.

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Baseado nesta conferência, que caminhos a pesquisa sobre biocarvão está tomando?
Johannes Lehmann - Já é bem claro que existe uma aumento grande de informações científicas sobre o biocarvão. Se você fizer uma comparação com a última conferência, em 2008, na Inglaterra, este evento no Rio de Janeiro é um grande avanço. Fico muito satisfeito em ver que, no Brasil, a Embrapa e algumas outras instituições incentivam o desenvolvimento desta área de fertilidade do solo. Nestes dias, nós vimos que a fertilidade do solo pode sim ser aumentada quando recebem o biocarvão.

O biocarvão pode aumentar a produtividade agrícola?
Lehmann - Pode, mas é preciso entender que cada manejo do solo tem um efeito sobre as funções do solo e você precisa desenhar este manejo para um tipo de solo. Já foi mostrado que certo tipo de carvão tem um bom efeito em um solo, mas não tem efeito nenhum em um solo diferente. É preciso desenvolver informações sobre quais manejos funcionam para que tipo de solo. Este nível de detalhe do manejo do biocarvão é muito importante. Existem diferentes tipos de biocarvão também, a diferença é grande e isso ainda não foi bem pesquisado. Ficou bem claro que vale à pena intensificar esta pesquisa para divulgar estudos e fazer testes em grande escala.

As pesquisas precisam avançar também para saber que tipo de tecnologia vai funcionar para cada tipo de solo? Já existe uma consenso sobre que tipo de pirólise ou qual tecnologia funciona melhor? Lehmann - Ainda não existe este consenso também. Precisamos também estudar os diferentes materiais porque um biocarvão de resíduo de boi é muito diferente de um biocarvão feito a partir de resíduo de cana-de-açúcar. É um ponto que precisamos desenvolver, saber que tipo de biocarvão pode ser aplicado para cada lugar.

Qual é a principal prioridade agora na linha de pesquisa sobre biocarvão?
Lehmann - Sob o ponto de vista da pesquisa, nós precisamos desenvolver todas as informações para desenhar biocarvão para um tipo de solo e de planta. Alguns biocarvões tem um pH muito alto e são muito bons para solos ácidos, mas para solos calcários você precisa de biocarvão com pH muito baixo. Existem muitas biomassas que ainda não foram testadas e nós precisamos analisar também os riscos de poluentes e metais contaminantes derivados destes processos de pirólise.

Falamos dos desafios, mas quais são os resultados positivos da pesquisa até agora? Quais são as boas notícias?
Lehmann - Foi a primeira vez que foram apresentadas pesquisas do uso do biocarvão no campo, pesquisas no solo do Cerrado do Brasil que claramente mostram que houve aumento de fertilidade. Precisamos da tecnologia (do biocarvão) para fazer a pesquisa, porque se não tem quantidade e qualidade de biocarvão não tem como fazer a pesquisa no campo.

Quais são as expectativas do senhor pra á próxima conferência daqui a dois anos?
Lehmann - Os últimos meses mostraram quase que uma explosão da pesquisa sobre biocarvão. Daqui a dois anos precisamos de resultados mais aprofundados, informação mais clara sobre o potencial do biocarvão. Acho que daqui a dois anos já teremos muito mais pesquisadores nesta área. Isso precisa de tempo, não funciona de um ano para o outro. Instituições como a Embrapa já começaram esta linha de pesquisa há alguns anos, mas outras instituições mundiais ainda estão começando a explorar este assunto. Para mim, já é uma surpresa esta expansão da pesquisa, mas ainda temos muitas informações para esclarecer antes da implementação em grande escala.