LOS CABOS, México. O Brasil foi derrotado durante a Cúpula do G-20, no México, em sua proposta de retomar a Rodada de Doha de negociações de regras para o comércio internacional em 2014. A presidente Dilma Rousseff pressionou para que os países deixassem expirar em 2013, conforme acordado, o compromisso comum de não serem adotadas novas barreiras comerciais pelos 20 países, de forma a se instalar no ano seguinte ampla discussão global a respeito de regras comerciais e se evitar uma guerra entre as nações. Mas não houve consenso.
Antes do desfecho, próxima de seu embarque para o Brasil, Dilma afirmou que a proposta do Brasil visava a evitar a prorrogação indeterminada, como nas últimas cúpulas, da chamada cláusula de standstill - pela qual as 20 maiores economias se comprometeram em 2008 a não levantar novas barreiras protecionistas e remover as criadas por causa da crise global. No ano passado, ela foi esticada a 2013.
O que o Brasil quer, disse ela, é que os países assumam a responsabilidade de resolver os desequilíbrios do comércio global, que, apesar dos compromissos, vive uma onda protecionista por trás do "biombo da crise internacional". Para Dilma, a prorrogação do standstill na prática estende barreiras levantadas durante as turbulências e impede o livre comércio, com consequências para países como o Brasil.
- É óbvio que há muita resistência à reabertura da Rodada de Doha (na OMC). O que se prefere é o free lunch , o almoço grátis. O café da manhã, o jantar, pode colocar a refeição que for, o importante é que seja grátis - disse, em referência ao fato de que, numa negociação, os países, para ganhar, precisam ceder em acesso a seus mercados.
Não podemos dar um cheque em branco
Para Dilma, os desequilíbrios do comércio internacional são amplamente conhecidos - subsídios agrícolas excessivos, altas tarifas industriais, falta de critérios no setor de serviços - e é hora de as nações sentarem à mesa para oferecer soluções e promover um sistema justo, com regras claras, em que países não se aproveitem de brechas e falta de regulações para levantar barreiras.
- A crise já deu tempo suficiente para as coisas baixarem. Tem gente que acha que Doha não pode ser retomada nos mesmos termos. Tudo bem. Mas não aceitamos prorrogar (o standstill ) por prorrogar. Senão é como dar um cheque em branco.
O parágrafo sobre comércio foi o último do documento final do G-20, a "Declaração de Los Cabos", a ser fechado, sendo concluído menos de uma hora antes da divulgação do comunicado. Coube ao presidente do México e do G-20, Felipe Calderón, informar que a decisão do colegiado, apesar de resistências de vários países, foi estender o standstill até 2014. A proposta inicial, bancada pelos países ricos, era até 2015. O compromisso de rotomar Doha em 2014 não entrou no documento, que fez só menção genérica à intenção dos países de retomarem o diálogo. (Flávia Barbosa, enviada especial)