Certificação na agricultura: produção integrada de algodão

Valorização do produto que atende às exigências do mercado internacional

Alderi Emídio de Araújo
Manejo

Em um cenário de economia globalizada as barreiras alfandegárias deixaram de ter papel preponderante para a inserção de produtos no mercado internacional por parte de países exportadores. Mesmo quando estas exercem papel determinante nas relações comerciais, o seu impacto é de fácil dimensionamento, tendo em vista tratar-se de valores numéricos claramente definidos.

O mesmo não se pode dizer de um conjunto de barreiras que tem, seguidas vezes, criado entraves ao comércio entre as nações e blocos econômicos, e que se baseiam em normas técnicas que abrem caminho para restrições de natureza social, ambiental, sanitária e de padrões de qualidade que envolvem conceitos diversos. Neste sentido se estabelece um sistema de concorrência no qual a redução dos custos de produção, embora mantenha sua importância e seja necessária, não é mais suficiente para a garantia de competitividade.

A certificação emerge nesse contexto como um conceito importante aplicado aos produtos agrícolas, visando estabelecer relações entre entidades produtoras e consumidores ou usuários que garantam segurança e respeito a normas técnicas específicas e predeterminadas. A certificação agrícola nasce do conceito de sustentabilidade e é direcionada ao atendimento de um mercado consumidor cada dia mais exigente quanto à forma de produção, que assegure ao ecossistema agrícola o respeito ao ecossistema como um todo, e que deixe clara a origem do produto agregando o conceito de rastreabilidade. Esta estabelece a origem, a qualidade, a identidade e o destino dos produtos, bem como visa garantir a segurança alimentar e de consumo. É importante entender que a certificação agrícola se, de um lado, se propõe a atender as exigências do mercado internacional baseadas em um conjunto de normas técnicas, de outro gera um diferencial para o produto com sua conseqüente valorização.

Considera-se que os agroecossistemas que suprem o homem de alimentos, fibras e energia encontram-se distribuídos por todo o planeta e, neste sentido, é fundamental compatibilizar a produção com a conservação dos recursos naturais, o bem estar dos trabalhadores rurais e a saúde humana e animal, garantindo que todo o sistema seja duradouro, inserindo-se no conceito de sustentabilidade, de modo que possa assegurar a sua preservação para as gerações futuras.

É nesse contexto que surgem os sistemas de produção integrada. Estes tem sido definidos como sistemas de produção de produtos agropecuários que, em função de se submeterem a um controle permanente de todos os processos que os envolvem, geram produtos que se caracterizam pela segurança oferecida ao consumidor e aos trabalhadores rurais e asseguram a preservação do meio ambiente.

Esse conceito surgiu na Europa na década de 70 a partir de manifestações de movimentos sociais e ambientalistas, cujo enfoque principal era a produção orgânica e florestal, além da abrangência restrita do manejo integrado de pragas como instrumento voltado para a racionalização do uso de produtos fitossanitários e de sustentabilidade da produção de frutas. O sistema se baseia em um conjunto de normas técnicas que atendem a princípios básicos que permeiam todo o sistema de produção, tais como a definição dos produtos fitossanitários que devem ser permitidos ou proibidos para uso na cultura; o manejo e a conservação do solo, controle de pragas, doenças e ervas daninhas; e a rastreabilidade do produto. O produtor voluntariamente decide participar do sistema, e por meio de uma entidade certificadora se compromete a cumprir as normas técnicas estabelecidas e se submeter a treinamentos e inspeções periódicas e ao registro de todas as atividades realizadas no sistema de produção. No final da safra a análise dos cadernos de campo permitirá saber se o produtor atendeu às exigências do sistema. Neste caso o mesmo é autorizado a comercializar seu produto com o selo de produção integrada. A identificação de não conformidades determina o desligamento do sistema.

Os principais países da Europa, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul adotaram sistemas de produção integrada para frutas de clima temperado e alguns produtos derivados. No Brasil a produção integrada de frutas já envolve culturas como banana, caju, caqui, citros, coco, figo, goiaba, maçã, mamão, manga, maracujá, melão, pêssego e uva e tem um programa de avaliação de conformidade desenvolvido entre o Inmetro e o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento que monitora os procedimentos e a rastreabilidade de todo o processo do programa. com o objetivo de torná-lo economicamente viável, ambientalmente correto e socialmente justo.

A estratégia de ampliação da Produção Integrada para hortaliças e cereais, desenvolvida pelos países que já a adotam para frutas fez o Brasil se antecipar e fomentar a implantação desse sistema para grãos e fibras.

 Um conjunto de outras iniciativas tem sido conduzido visando à certificação de produtos agrícolas. No caso do algodão o sistema BCI (Better Cotton Initiative) representa uma delas. Este sistema conta com o apoio de grupos privados da cadeia têxtil e Organizações Não Governamentais. A preocupação do setor público em definir um sistema de produção integrada para grãos e fibras dá-se em função da necessidade de se ter uma certificação oficial que possa dar suporte a negociações que envolvam até mesmo interesses de Estado.

Neste sentido, O Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento - MAPA através da Embrapa e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) vem conduzindo um projeto visando estabelecer um sistema de produção integrada de algodão. O projeto envolve a participação de diferentes segmentos da cadeia produtiva incluindo pesquisadores, técnicos, fundações de apoio à pesquisa, consultores, produtores e as associações que os congregam nos estados, assim como a Associação Brasileira de Produtores de Algodão-ABRAPA.

É importante salientar que a Produção Integrada visa à melhoria do sistema produtivo. Portanto o produtor ganha com o sistema, além das vantagens já mencionadas, a participação em um mercado diferenciado. A adesão é recomendável, mas é voluntária e o produtor não estará sujeito a sanções de qualquer natureza se não aderir.

A produção integrada se constitui em mais um instrumento