Com assistência técnica agricultores familiares produzem leite de alta qualidade

"Tem que fazer cálculo, se não fizer cálculo não dá certo". Esta é a filosofia usada pelos Pizzolatto

Emater/PR
Agricultura Familiar

Da propriedade dos Pizzolatto, em Saudade do Iguaçu, sudoeste do Paraná, o litro de leite não sai por menos de R$ 1,21, bem acima dos R$ 0,88, média paga aos produtores paranaenses na ultima semana. “É o preço da qualidade”, justifica Eugênio Pizzolatto, responsável pela administração do condomínio formado por quatro irmãos, agricultores familiares, onde cada um tem a sua propriedade, mas nenhuma delas com cerca nas divisas. Esta “qualidade” perseguida na produção leiteira é traduzida nos mais de 4% de gordura, índice de proteína superior ao exigido e contagem bacteriana e células somáticas abaixo de 100.

A produção de leite é a principal atividade do condomínio. “Todo o trabalho feito aqui é em função do leite. Do rebanho Jersey, cada uma das 120 vacas em lactação produz hoje 17 litros ao dia, mas queremos chegar aos 20”, conta Eugênio. Por enquanto, são cerca de 2 mil litros de leite que saem da propriedade diariamente, graças ao bom manejo dos animais e, principalmente, a uma alimentação farta tanto no verão quanto no inverno, em 20 hectares de pasto sombreado, silagem e ração feitas de milho e soja produzidos na propriedade. “Temos mais pasto no inverno do que no verão”, conta Alcides de Almeida, um dos membros do condomínio, casado com Claudete Pizzolatto. Segundo os produtores, o planejamento das atividades e a orientação técnica em todos os segmentos da cadeia produtiva garantem os bons resultados do condomínio.

O começo
A história de sucesso dos Pizzolatto começou há 16 anos, quando os irmãos herdaram os 10 hectares de terra do pai e viram-se diante de um dilema: como garantir renda suficiente para manter as quatro famílias no campo? Procuraram, então, a orientação dos técnicos da extensão rural. Através da Emater-Pr, Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural, vinculada à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná, tiveram acesso ao programa Banco da Terra, hoje Crédito Fundiário, do governo federal, e adquiriram mais terras em volta da propriedade inicial. Além disso, seguiram à risca os caminhos indicados pelos extensionistas para explorar a vocação da propriedade, a organização e a mão de obra familiar. “O começo foi difícil, lutamos com dificuldade, mas graças a Deus conseguimos chegar onde chegamos”, comemora Eugênio Pizzolatto.

Para a família, que uma vez por mês se reúne para avaliar e planejar o trabalho, a assistência técnica e a união dos irmãos foram fundamentais para o sucesso. “Aqui não tem picuinha, não interessa se um tem área maior do que o outro, se um trabalha mais ou trabalha menos. No final do mês todo mundo recebe a mesma coisa. Trabalhamos por qualidade de vida para a família”, diz o agricultor.

Silvipastoril
“Tem que fazer cálculo, se não fizer cálculo não dá certo”. Esta é a filosofia que os Pizzolatto aprenderam com os técnicos da Emater e a aplicam na hora de tomar qualquer decisão de investimento no condomínio. Foi assim na hora de decidir pelo sistema integrado silvipastoril. Um projeto em parceria entre Embrapa/Floresta e Emater-Pr, ofereceu a oportunidade da implantação do sistema numa área de 20 hectares de pasto, com o plantio de grevílea. Pela avaliação dos técnicos da extensão rural, o plantio de árvores no pasto seria o ideal para garantir alimentação de qualidade, conforto térmico aos animais e promover a conservação de solos na propriedade. Para o agricultor o sistema veio e boa hora. “A gente não tinha uma sombra no pasto, os animais sofriam muito com o calor e normalmente no verão dava uma quebra de uns 20% na produção”, afirma Eugênio.

Há oito anos foram plantadas 2.400 mudas de grevílea formando linhas no meio do pasto. Em função do clima, com geadas inesperadas, e ataque de formigas, sobraram 1.800 árvores. Além da sombra e conforto aos animais, elas começam a dar lucro aos produtores. Cerca de 700 árvores estão sendo cortadas dentro da programação de raleio determinada pela pesquisa. A madeira de descarte vai ser beneficiada em serraria móvel própria, mas ainda não tem destino certo. “Estamos estudando a melhor aplicação, mas parece que o que pode render mais é forro para imóveis”, calculam os Pizzolato.

O desempenho do sistema silvipastoril no condomínio vai além das vantagens para os animais e para os produtores. Um cálculo rápido feito pelo pesquisador da Embrapa/Florestas Wanderlei Porfírio, com base na avaliação do potencial de uma amostra das árvores, cada uma das 1.800 grevíleas que vingaram tem capacidade para garantir o sequestro de 20 quilos de carbono por ano. “Temos aqui um sistema raríssimo no país, com grevílea, tiffton, aveia e azevem mostrando que é possível produzir muito bem, conservando e preservando o meio ambiente”, comemora o pesquisador.