Comer de verdade

O ato de comer na “modernidade” foi transformado numa atividade mecânica, com pressa, estresse e alguma culpa

Moacir Roberto Darolt
Agricultura Orgânica

Comer de forma consciente é prestar atenção no que se come, valorizando e sentindo o sabor e a textura de cada alimento, fazendo de cada refeição um pequeno ritual. Isso não está relacionado com dieta e nem cardápios ou receitas prontas. É comum na correria do dia-a-dia as pessoas comerem por hábito, mesmo sem ter fome, contrariando o ritmo natural do corpo. Nessa parte do texto, vamos refletir  sobre o que é comer de verdade.

De acordo com Pollan (2008), quatro das dez principais causas de morte nos países industrializados são doenças crônicas ligadas à alimentação: distúrbios coronarianos, diabetes, AVC e câncer. Interessante observar que muitas doenças predominantes nos países industrializados são raras nas comunidades rurais do Terceiro Mundo, onde os alimentos foram pouco alterados antes do consumo. Infelizmente esse tipo  de informação é pouco divulgada, mas a realidade é que a comida simples, caseira, de lugares subdesenvolvidos é muito mais completa, nutritiva e sadia do que todos os alimentos processados produzidos pela indústria nos países do Primeiro Mundo.

O ato de comer na “modernidade” foi transformado numa atividade mecânica, com pressa, estresse e alguma culpa. O argumento mais comum é a correria do dia a dia e a falta de tempo. Mas, paradoxalmente, a maior parte das pessoas passam mais de 10 horas por semana em frente a televisão e outras tantas em frente ao computador. Num cálculo básico, pode-se ver que essas pessoas quando chegarem aos 70 anos de idade terão passado quase 5 anos em frente a televisão. Por outro lado, já se sabe que povos com hábitos de comer devagar, valorizando  o prazer das refeições apresentam melhor saúde e qualidade de vida.

A maior parte do que comemos, na lanchonete, diante da TV, no carro e, cada vez mais, sozinhos, não é comida mas, segundo Pollan (2008), “substâncias comestíveis parecidas com comida”. Não são mais produtos da natureza, mas produtos processados de acordo com as prioridades da indústria de alimentos e da “ciência” da nutrição. A maior parte desse tipo de alimento é comercializada com destaque de seus benefícios à saúde. Sob o rótulo de baixo teor de gordura ou enriquecido com ômega-3, ferro, magnésio; vitaminas ; livre de gorduras trans - os alimentos industrializados estão causando uma grande confusão na cabeça do consumidor.

Algumas linhas da nutrição se preocupam principalmente com a quantidade de proteínas, carboidratos, calorias e nutrientes minerais. As escolas mais conscientes se preocupam principalmente com a qualidade dos nutrientes, comprovando a importância do valor biológico – a força vital dos alimentos – para a nossa saúde.
 
O fato é que a alimentação saudável contraria muitos hábitos das sociedades industriais e as pessoas consideradas “modernas” não estão dispostas a abrir mão da comodidade dos alimentos pré-cozidos e prontos para uso,  fornecidos pela indústria alimentícia.

A preocupação maior deve ser com as crianças. Algumas ainda não tiveram o privilégio de distinguir o sabor verdadeiro de produtos da natureza, como por exemplo, o leite de vaca in natura, pois se alimentaram apenas de leite em pó ou leite longa vida. Assim também ocorre com a maioria dos sucos de frutas com sabores e cores artificiais. O que se constata é que o padrão de referência sensorial em termos de sabor, cheiro e  gosto da nova geração foi alterado. Os resultados já são conhecidos cientificamente: sobrepeso e obesidade, com um estado nutricional desequilibrado.

As consequências disso são milhares de pessoas com doenças relacionadas à alimentação, abarrotando o sistema de saúde, que poderia ser chamado de  sistema de doença, pois trata  a doença e não à saúde.


Para finalizar algumas sugestões que podem ajudar no dilema de comer:

1- prefira alimentos de origem conhecida, que sejam vivos (frutas frescas e hortaliças cruas) e, de preferência, sem agrotóxicos;
2- acredite no conhecimento, na experiência e na tradição alimentar dos seus antepassados;
3- evite alimentos processados (enfraquecidos) e tóxicos. Rótulos com muitos ingredientes que você não consegue ler e nem pronunciar são suspeitos.  Veja por exemplo um óleo de oliva, nos ingredientes estará escrito apenas “azeitonas”, além de informações complementares do processo de produção.
3- desconfie de produtos que não estragam e podem ser conservados por muito tempo fora da geladeira (isso não é vantagem para sua saúde, apenas para quem vende o produto);
4- não fique escravo dos supermercados. Não é um lugar saudável para se ficar muito tempo!
5- volte a frequentar a feira do produtor, onde você poderá conversar direto com quem produziu o alimento. Mas, atenção para aqueles feirantes que compram tudo nas Centrais de Abastecimento (CEASA). Especular sobre a origem do alimento não ofende!
6- se puder plante e prepare alguma coisa de sua refeição. Uma horta orgânica em casa ou alguns vasos no apartamento com temperos, condimentos e grãos germinando tornará você mais sustentável, além de promover a atividade física e ser uma boa terapia;
7- coma devagar, com moderação, sem culpa, com prazer e em boa companhia quando for possível.