Congresso discute novas tecnologias de biocarvão

Especialistas de diversas partes do mundo divulgaram novas informações sobre a composição do material e resultados da aplicação no solo

Juliana Royo
Nutrição Vegetal

A cidade do Rio de Janeiro sediou esta semana a III Conferência Internacional sobre Biocarvão, o maior evento mundial sobre o tema, entre os dias 12 e 15 de setembro, no Rio Othon Palace Hotel. Cerca de 350 cientistas de vários países da Europa, África, Ásia e Américas participaram do evento, incluindo grandes autoridades em ciência do solo como o austríaco Winfried Blum, o alemão Johannes Lehmann e o britânico Anthony Bridgwater, especialista em pirólise. Na terceira edição da reunião, que acontece a cada dois anos, a caracterização do biocarvão e as experiências da aplicação do material no solo pautaram os principais estudos dos pesquisadores.

As pesquisas ainda são iniciais, mas a esperança é grande de que o biocarvão ajude de forma muito eficaz a redução do aquecimento global e o aumento da fertilidade dos solos já na próxima década. O consenso dos especialistas é de que os estudos devam se voltar agora para a avaliação da qualidade dos diversos tipo de biocarvão gerados a partir de diferentes biomassas e, principalmente, identificar que tipo de biocarvão é melhor para cada tipo de solo. Além disso, ainda é preciso chegar a um consenso sobre a forma de aplicar o biocarvão e a temperatura ideal do processo de pirólise (tecnologia que faz a carbonização das biomassas).

— Os últimos meses mostraram quase que uma explosão da pesquisa sobre biocarvão e durante este congresso ficou bem claro que vale à pena intensificar esta pesquisa para divulgar estudos e fazer testes em grande escala. Precisamos também estudar os diferentes materiais porque um biocarvão de resíduo de boi é muito diferente de um biocarvão feito a partir de resíduo de cana-de-açúcar. É um ponto que precisamos desenvolver, saber que tipo de biocarvão pode ser aplicado para cada lugar. Sob o ponto de vista da pesquisa nós precisamos desenvolver todas as informações para desenhar biocarvão para um tipo de solo e de planta específicos. Alguns biocarvões tem um ph muito alto e são muito bons para solos ácidos, mas para solos calcários você precisa de biocarvão com ph muito baixo. Existem muitas biomassas que ainda não foram testadas e nós precisamos analisar também os riscos de poluentes e metais contaminantes derivados destes processos de pirólise — destaca o doutor em ciência do solo  Johannes Lehmann, professor da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos.

O mais interessante do biocarvão é que ele não é só uma tecnologia ambiental. Além de sequestrar carbono e ter uma grande contribuição para a mitigação das mudanças climáticas, ele pode aumentar a fertilidade dos solos, algo extremamente valioso para a agricultura. Com o boom populacional e a veloz demanda por alimentos no mundo, é cada vez mais necessário desenvolver tecnologias que aumentem a produtividade e, principalmente, melhorem a fertilidade dos solos para que as culturas possam de desenvolver em seu melhor potencial e para que a terra utilizada não seja degradada. Especialistas apontam boas notícias para os agricultores brasileiros que precisam se preocupar com a qualidade dos seus solos. Muitas pesquisas estão sendo realizadas com o objetivo de avaliar exatamente como o biocarvão consegue aumentar a fertilidade dos solos e melhorar a eficiência de nutrientes importantes como nitrogênio, fósforo, potássio e água.

O biocarvão é desenvolvido e estudado a partir de pesquisas feitas com a Terra Preta de Índios, um solo extremamente fértil na bacia amazônica, existente há mais de 4 mil anos, que possui alta concentração de matéria-orgânica carbonizada. O biocarvão é formado a partir da queima de biomassas residuais da agropecuária como casca de arroz, bagaço de cana, sobra de madeira ou dejetos de animais. Inúmeras biomassas ainda precisam ser estudas e avaliadas para a produção de biocarvão, de acordo com cada tipo de solo. Uma garnde necessidade da pesquisa, observadas durante o evento, é a expansão de estudos por novas matérias-primas para serem carbonizadas. Entre os novos materiais que estão sendo analisados está até osso de suínos, tema de uma das pesquisas do mestre em ciência do solo e doutor em físico-química Etelvino Novotny, pesquisador da Embrapa Solos. Outra grande discussão entre os participantes do evento foi descobrir qual é a melhor forma de pirólise para o biocarvão e a que temperatura este processo deve ser realizado para que gere o melhor produto possível. A palestra do doutor em engenharia química Anthony Bridgwater, uma das maiores autoridades sobre pirólise no mundo, falou sobre a diferença entre os processos de pirólise lenta e pirólise rápida.

O doutor em biologia do solo John Gaunt, criador da Carbon Consulting LLC, empresa especializada na pesquisa em biocarvão, foi um dos palestrantes do congresso e chamou atenção para o fato de que o biocarvão pode ser a saída para dois grandes problemas globais da atualidade: as mudanças climáticas e o que ele chamou de a “segunda revolução verde” de alimentos. Segundo Gaunt, há uma grande dificuldade de parte da sociedade e da classe política de entender a necessidade da redução das emissões de gás carbônico e dióxido de carbono, principalmente porque elas implicam em mudanças de hábito da população e muitas pessoas são resistentes a estas mudanças, tornando a compreensão do tema mais difícil. Sob este ponto de vista, o biocarvão é uma grande vantagem porque ele não implica em mudanças de hábito, ele simplesmente é uma tecnologia que captura e armazena no solo o carbono que foi despejado na atmosfera, o que que pode facilitar muito a adoção da tecnologia.

A Conferência foi organizada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, por meio de suas Unidades Solos (Rio de Janeiro/RJ), Florestas (Colombo/PR), Arroz e Feijão (Santo Antônio de Goiás/GO) e Amazônia Ocidental (Manaus/AM) e pela International Biochar Innitiative. Tem apoio da Embrapa, CAPES, FAPERJ, CNPq e Consulado Geral Britânico, e patrocínio de Anthroterra, Clean Air Task Force, BlackCarbon, ALL Power Labs, Biochar Engineering Corporation, CarbonZero, Chip Energy, Pacific Pyrolysis, Richmond Landcare Inc, The United Nations Foundation, Earthscan e Portal Dia de Campo

Mais informações sobre o evento, biocarvão e Terras Pretas de Índios podem ser encontradas em: http://www.ibi2010.org/inicio