A cultura do algodão já chegou a ultrapassar os 3 milhões de hectares plantados no Nordeste e estava no topo da lista de importância do país. Porém, problemas no sistema produtivo, principalmente com os estragos causados pelo bicudo, os produtores deixaram de plantar algodão e o mercado produtivo foi muito reduzido. Para tentar resgatar a importância do algodão no Nordeste, o pesquisador Fábio Aquino, da Embrapa Algodão, está coordenando o projeto de consórcio agroecológico do algodoeiro. Um dos objetivos é reduzir a infestação de pragas na lavoura, além de melhorar a rentabilidade do produtor e organizar a cadeia. Além disso, o cultivo não utiliza agrotóxicos ou químicos, visando a certificação orgânica para o exportação o e mercado seletivo interno.
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O projeto do consórcio agroecológico do algodoeiro foi iniciado em 2008 e hoje já conta com mais de 500 famílias em quase 500 hectares. As culturas mais utilizadas no consórcio são o feijão, milho, gergelim, amendoim e mamona, mas existem produtores usando outras culturas como gerimum e melancia, por exemplo. Os produtores só podem plantar algodão em até 50% da área produtiva, a outra metade deve ser destinada aos outros cultivos. Os resultados têm mostrado uma boa produtividade do algodão consorciado e uma eficiência no controle de pragas. A produção média do algodão tem sido de 500 quilos por hectare, em metade do hectare, ou seja, seria de 1 tonelada por hectare se fosse plantado em monocultivo. Os produtores devem tomar alguns cuidados para obterem maior sucesso, o principal deles é intercalar corretamente as linhas de plantio.
— Quando a gente trabalha com culturas como gergelim, amendoim, milho e feijão conseguimos trabalhar com 5 linhas de plantio de algodão intercaladas com 5 linhas de plantio de outra cultura. Quando a gente trabalha com a mamona que tem um espaçamento maior com espaçamento entrelinhas de 3 metros e entreplantas de 1 metro. Neste caso, o algodão entra na entrelinha do plantio da mamoneira, geralmente dá duas fileiras de algodão. Nós não temos muito problemas em relação a doenças por causa do clima da região do semiárido que não é muito propenso a isto. Na questão de pragas, o bicudo era o grande vilão do algodão, mas já temos técnicas suficientes para conseguir conviver com ele — explica o Fábio Aquino, pesquisador da Embrapa Algodão e coordenador do projeto.
Para conseguir a certificação orgânica, que valoriza o produto e posiciona a produção para o mercado internacional ou especializado, os produtores também precisam seguir alguns padrões, sendo o principal deles a não utilização de agroquímicos, tanto no controle das pragas quanto na adubação do solo. Os cuidados passam pelo preparo do solo, o manejo fitossanitário e até a colheita. Segundo Aquino é feito um monitoramento ambiental da produção para avaliar a qualidade do solo e a macrofauna dos insetos da área. Outro ponto incentivado pelo projeto é a organização dos produtores e a ajuda para a organização da comercialização.
— Esse projeto tem um viés de comercialização muito forte, que é a questão dos compradores do algodão de outras culturas negociarem diretamente com os produtores sem intermediação. Os agricultores do Nordeste já sofreram muito com cooperativas e associações e o projeto tem um tratamento diferenciado neste aspecto que é sensibilizar estes agricultores para que eles possam atingir mercado internacional. Para isso eles precisam de quantidade, qualidade e frequência de fornecimento de matéria prima. Como o clima do semiárido nordestino já é bastante complexo, a questão da organização da cadeia é o ponto-chave do projeto. Não é a solução da lavoura, mas é um caminho que está sendo muito bem traçado para que os produtores se apropriem destas tecnologias e se organizem para soerguer a cultura do algodão — destaca Aquino.