Cultivo protegido: regularidade na produção

Cobertura plástica sobre as videiras protege a planta podendo acabar com o uso de fungicidas e fazendo com que produção não seja afetada pelas chuvas

Juliana Royo
Sanidade Vegetal

O cultivo protegido é um novo sistema de produção que usa uma lona plástica para cobrir a lavoura. O objetivo da nova tecnologia é proteger a planta tanto da incidência de pragas e doenças como dos danos causados pelas chuvas. No caso da videira, a redução da ocorrência de fungos é tamanha que é possível acabar com o uso de fungicidas no cultivo. Além disso, a regularidade e uniformidade dos cachos de uva é garantido porque não há influência das chuvas no cultivo. A produção é sempre a mesma independente da quantidade de precipitação da safra e a fruta pode desenvolver o seu período ideal de maturação, sem que haja a preocupação de fazer uma colheita antecipada por causa da grande ocorrência de chuvas no ano.

|BARRA_AUDIO|

— O principal objetivo é que, com esta alteração de microclima com a eliminação de água livre sobre a planta, ele promove uma restrição da água livre e condição para que não permita o desenvolvimento das principais doenças fúngicas como míldio e podridões de cacho. O sistema de cultivo protegido propicia o cultivo orgânico e pode promover até a isenção do uso de fungicidas porque para que o fungo comece a estabelecer a doença ele precisa de água livre. O fato da cobertura evitar esta água livre faz com que caia drasticamente a ocorrência de fungos, assim como a demanda de tratamento. O grande benefício no aspecto produtivo é a regularidade e uniformidade.— explica o doutor em fisiologia vegetal Henrique Pessoa dos Santos, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho.

Apesar do cultivo protegido ser um grande benefício do ponto de vista fitossanitário, ele também pode ser perigoso para os produtores que usam os químicos de forma irresponsável. Normalmente, a ocorrência de fungos é muito baixa e a utilização de agrotóxicos só se faz necessária em casos muito específicos como o eventual molhamento. Como a videira é coberta por uma lona a persistência do produto é muito maior do que o normal e o período de carência é alterado. Com isso, os produtores precisam tomar cuidados redobrados com as aplicações, que devem ser localizadas. É preciso mudar os conceitos e deixar de fazer as aplicações por calendário porque a lona plástica já faz a prevenção.

— Uma questão importante é que o que for aplicado sobre as plantas nestas condições tem uma persistência muito maior do que no cultivo convencional. Aquilo que está marcado como período de carência nos rótulos dos produtos foi desenvolvido para aplicação em cultivo convencional, não coberto. Pelo fato da cobertura impedir que este produto seja lavado pela chuva e impedir que os raios ultravioletas degradem as moléculas do produto o fungicida vai persistir na fruta por muito mais tempo. Então, o que se recomenda hoje, pelo fato de agente não saber o período de carência dos produtos sob a cobertura do cultivo protegido, é só tratar quando ocorrer molhamento em baixo da cobertura e só aplicar nestes pontos de molhamento em baixo da cobertura. Se não houver um respeito pelos produtores é muito fácil que se tenha resíduo no final do ciclo e que se crie uma imagem negativa de uma tecnologia que tem grande chance de propiciar frutas com o mínimo de resíduos e máxima segurança alimentar.  — alerta Santos.

O cultivo protegido é mais recomendado para cultivares de uva de mesa por causa do grande valor de investimento da tecnologia, que chega a até US$ 40 mil. Como as uvas de mesa têm preço valorizado no mercado é mais fácil o agricultor ter retorno econômico. Porém, alguns produtores de uvas finas que possuem a própria têm adotado o sistema para valorizar seus produtos que podem ser classificados como orgânicos. Com relação ao local, o cuidado deve ser para que a área não sofra muito com ventos porque a lona pode ser arrancada facilmente e o custo da tecnologia não é baixo.

— O efeito guarda-chuva que a cobertura proporciona sobre a videira vai desde o início da brotação até a colheita. Um momento crítico que define muito o potencial produtivo da videira é o momento da floração. A cobertura impede que a chuva exerça um efeito danoso nesta fase, ocorre uma uniformidade de cachos na floração. Isto independe do ano, independe dos fatores climáticos. Há regularidade de produção independente da quantidade de chuvas na safra. Um outro ponto-chave é que no período final de maturação, se ocorrerem chuvas, é muito normal os produtores anteciparem a colheita, antes do ponto ideal de maturação. Sob a cobertura isso não ocorre porque é possível permitir que a fruta atinja o ponto ideal de maturação sem o risco de perda em função das chuvas — diz o pesquisador.