Desafios para a implementação do programa Agricultura de Baixo Carbono

A PNMC estabelece instrumentos importantes do ponto de vista financeiro para as organizações que desenvolverem ações de redução de emissão de GEE

Ronaldo Trecenti
Agricultura Sustentável

 

Na última Conferência das Partes (COP 15) sobre mudanças climáticas realizada em Copenhague, na Dinamarca, o Brasil assumiu o compromisso voluntário de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) entre 36,1% e 38,9% nos próximos dez anos (2010/2020).

Esse compromisso nacional foi estabelecido legalmente por meio da Lei 12.187, sancionada em 29 de dezembro de 2009, que instituiu a Política Nacional de Mudança do Clima (PNMC). O artigo 11º desta lei afirma que serão estabelecidos, por meio de decretos específicos, planos setoriais de mitigação e de adaptação à mudança global do clima, visando à consolidação de uma economia de baixo consumo de carbono.

As cifras estabelecidas pelos nossos dirigentes estão relacionadas a um cenário tendencial de crescimento de emissões, caso nenhuma medida seja tomada, ao invés da redução de emissões ter como referência um ano-base, como é o caso das metas para países desenvolvidos. Dessa maneira, segundo a projeção para 2020, o país emitiria 2,7 bilhões de toneladas de CO2, mas de acordo com a proposta se compromete a reduzir entre 975 e 1.052 milhões de toneladas de CO2.

A PNMC estabelece instrumentos importantes do ponto de vista financeiro para as organizações que desenvolverem ações de redução de emissão de GEE, tais como: a) medidas fiscais e tributárias de estímulo; b) linhas de crédito e financiamento específicas de agentes públicos e privados; e c) formação de um mercado brasileiro de redução de emissões, com os chamados créditos de carbono sendo considerados ativos mobiliários negociáveis em bolsa de valores.

O Mapa, juntamente com outros ministérios, montou o programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), cujo objetivo é buscar alternativas de baixa emissão de carbono, de forma a assegurar a adoção de tecnologias que proporcionem a recuperação da capacidade produtiva dos solos, o aumento da produtividade e a redução da emissão de GEE.

As metas do programa ABC, paro o período 2010/20 são:

1 - Recuperação de uma área de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, como manejo adequado e adubação, possibilitando uma redução de 101 milhões de toneladas de GEE, em equivalente carbono;

2 - Adoção do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) em 4 milhões de hectares, permitindo uma redução de 20 milhões de toneladas de GEE, em equivalente carbono;

3 - Ampliação do uso do sistema plantio direto (SPD) em 8 milhões de hectares, que passaria de 25 milhões para 33 milhões de hectares, com uma possível redução de 16 a 20 milhões de toneladas de GEE, em equivalente carbono;

4 - Estímulo à fixação biológica de nitrogênio (FBN) na produção de soja em grãos de 11 milhões para 16,5 milhões de hectares, atingindo uma redução de 16 a 20 milhões de toneladas de GEE, em equivalente carbono;

5 - Incremento do plantio de florestas econômicas em 3 milhões de hectares, resultando no sequestro de 10 milhões de toneladas de GEE, em equivalente carbono.

Para dar início ao cumprimento dessas metas o Governo Federal está destinando recursos no valor de R$ 2 bilhões, para o Programa ABC, no Plano Agrícola e Pecuário 2010/11, com limite de financiamento por beneficiário de R$ 1 milhão, taxas de juros de 5,5% ao ano, com prazos de pagamento em até 12 anos e carência de até seis anos, para produtores rurais que adotarem práticas citadas anteriormente.

Vários desafios muito sérios deverão ser enfrentados para que essas metas sejam atingidas. A seguir são apresentados alguns deles:

- capacitação da assistência técnica e extensão rural para a implantação dessas novas tecnologias.

- difusão das tecnologias para: recuperação de pastagens degradadas, implantação do SPD e da ILPF, e para o incremento da FBN.

- suporte da pesquisa para o desenvolvimento e aprimoramento de novas tecnologias.

- implementação do sistema de pesquisa em rede.

- capacitação dos analistas técnicos rurais dos agentes financeiros para análise de projetos de financiamento à implantação dessas tecnologias.

- facilitação do acesso dos produtores rurais às linhas de crédito para financiamento da adoção dessas tecnologias, com redução da burocracia e das garantias exigidas pelos agentes financeiros.

- permissão de acesso ao crédito para investimentos aos produtores com dívidas renegociadas.

- implementação do seguro rural com cobertura para os cultivos consorciados, com base no zoneamento agrícola.

- estímulo à certificação e rastreabilidade de produtos das cadeias produtivas envolvidas nesses sistemas produtivos

- implementação de políticas de pagamento por serviços ambientais gerados pela adoção dessas tecnologias.

- elaboração de um plano estratégico para superar os gargalos de infraestrutura (colheita, processamento, armazenamento, transporte e escoamento) da produção.

- estímulo a iniciativas para agregação de valores à produção.

- elaboração de um programa de comercialização do incremento de produção gerado pela adoção dessas tecnologias.

- implementação de políticas de incentivos para produtores adotantes dessas tecnologias, tais como: ICMS verde, redução do ITR, redução do prêmio do seguro agrícola etc.

Espera-se que nossos novos dirigentes possam se dedicar com seriedade, transparência e eficiência para resolver estes gargalos apresentados e que como cidadãos estejamos atentos para cumprir o nosso dever de fiscalizá-los, pois as metas poderão nos ser cobradas severamente pelos nossos consumidores nacionais e internacionais.