É possível quantificar a qualidade do solo?

Qualidade do solo é vital para a produção sustentável de alimentos e fibras e para o equilíbrio geral do ecossistema

Iêda de Carvalho Mendes, Guilherme Chaer, Fábio Bueno
Manejo

Conforme já mencionamos em artigos anteriores na nossa coluna, apesar da importância do solo como base de todos os nossos sistemas de produção de alimentos, o conceito de qualidade do solo é recente (surgiu na década de 1990) e envolve não só a questão da produtividade biológica (grãos, carne e leite), mas também todos os serviços ambientais que o solo presta ao planeta Terra e que resultam na melhoria da qualidade da água e do ar e na promoção da saúde dos seres vivos, incluídos aí plantas e animais.

Não se pode falar em agricultura sustentável sem falar em qualidade do solo, principalmente no atual cenário mundial em que a população e a demanda por alimentos são crescentes e estudos mostram que em torno de 40% dos solos do mundo estão degradados. A qualidade do solo é vital para a produção sustentável de alimentos e fibras e para o equilíbrio geral do ecossistema. Manter ou aumentar a qualidade dos solos pode prover uma série de benefícios econômicos e ambientais. Por exemplo, solos de alta qualidade são produtivos, pois permitem uma alta eficiência da utilização de água e nutrientes pelas culturas. Adicionalmente, o manejo adequado do solo promove a melhoria na qualidade da água e do ar via a redução da erosão, lixiviação de contaminantes e da emissão de gases de efeito estufa. A mensuração desses benefícios, no entanto, pressupõe a existência de um método ou índice que permita acessar e monitorar a qualidade dos solos manejados de forma a permitir a discriminação de sistemas sustentáveis daqueles não sustentáveis.

Entretanto, a quantificação da qualidade de um solo não é uma tarefa fácil. A multiplicidade de fatores químicos, físicos e biológicos que resultam no “funcionamento” do solo e suas variações, em função do tempo e espaço, estão entre os fatores que dificultam a capacidade de acessar a sua qualidade. Além disso, existe uma enorme diversidade de tipos de solo, os quais podem ser submetidos a uma multiplicidade de usos.

Apesar dessas dificuldades, várias estratégias têm sido empregadas para a elaboração de Índices de Qualidade de Solo (IQS). Em comum, os modelos propostos incluem três passos para produzir o IQS: (1) a seleção de um conjunto mínimo de propriedades físicas, químicas ou biológicas designadas como indicadores de qualidade do solo; (2) a definição de um sistema de pontuação para interpretar a adequabilidade dos valores do indicador e transformá-los para uma escala comum, e (3) a combinação das pontuações dos indicadores para produzir o índice. Geralmente, o peso de importância de cada indicador no IQS é determinado pela sua capacidade de estimar a performance de funções-chave do solo. Dentre estas podem ser citadas o suporte físico para as raízes das plantas; a retenção, suprimento e ciclagem de nutrientes; a retenção e a condutividade de água; o suporte para as cadeias alimentares e a biodiversidade do solo; o tamponamento e filtragem de substâncias tóxicas e o sequestro de carbono.

Para facilitar a definição de modelos e o cálculo dos IQS, a Universidade Federal de Viçosa desenvolveu o software SIMOQS (“Sistema de Monitoramento da Qualidade do Solo”), o qual permite a construção e condução de testes de modelos para cálculos de IQS de forma rápida, com uma interface amigável e que podem ser aplicados a diferentes regiões e culturas. Esse software atualmente está em fase de aperfeiçoamento.

Longe da pretensão de representar um consenso, as várias abordagens utilizadas para o monitoramento da qualidade do solo e para o cálculo de IQS constituem, antes de tudo, subsídios para discussões técnicas sobre: i) quais os atributos (químicos, físicos e biológicos) devem fazer parte de um conjunto mínimo de dados para avaliar a qualidade do solo; e de ii) como ajustar modelos de referência para cada sistema de manejo/cultura avaliado, levando em consideração os aspectos locais, principalmente aqueles relacionados às condições edafoclimáticas. A compatibilização dessas questões, a inclusão do componente econômico relacionado à produtividade das culturas nos cálculos de IQS e a própria forma de utilização desses índices são aspectos importantes que também precisam ser considerados.

Em um mundo globalizado onde a preocupação com a valoração dos serviços ambientais e as barreiras ao comércio internacional se tornam cada vez mais evidentes, é possível que, uma vez bem definidos e normatizados, os índices de qualidade de solo permitam a agregação de valor aos produtos agrícolas oriundos de propriedades rurais/países que sejam capazes de comprovar que as práticas de manejo adotadas em suas lavouras permitem a manutenção ou melhoria da qualidade do solo, garantindo a preservação desse recurso. Seguindo esse raciocínio, o uso desses índices poderia também servir como referencial para a valoração das terras e para a redução de impostos e de taxas de juros de financiamentos agrícolas.

Várias agências reguladoras internacionais têm discutido como avaliar a qualidade do solo. A título de exemplo, o comitê técnico internacional ISO 190, “Qualidade do Solo”, propôs uma lista de 35 parâmetros (químicos, físicos e biológicos) como indicadores de qualidade de solo, enquanto que na OECD (Organization for Economic Cooperation and Development) estão sendo definidos diversos indicadores agroambientais (aproximadamente 250, dos quais 58 relacionados à qualidade do solo). Atualmente, a Nova Zelândia já possui um sistema governamental on-line (http://sindi.landcare.cri.nz) para avaliação da qualidade do solo, denominado SINDI (The New Zealand Soil Indicators), que utiliza apenas 7 indicadores. Os dados obtidos em cada propriedade rural podem ser comparados simultaneamente a um banco de dados nacional oriundo de 500 solos.
Na EMBRAPA, um dos objetivos do projeto “Biondicadores de qualidade de solo” é determinar, com base em propriedades microbiológicas, químicas e físicas avaliadas em solos de diferentes regiões e sistemas de produção, índices para avaliação/monitoramento da qualidade de solos brasileiros, que possam auxiliar nas avaliações de sustentabilidade de diferentes agroecossistemas. O tema é complexo, mas a idéia é proporcionar soluções simples que possam ser adotadas facilmente por técnicos e agricu