Embrapa faz queimada controlada para estudar efeitos na Amazônia

Os dados finais da pesquisa permitirão quantificar, entre outros aspectos, os teores de carbono equivalente emitidos durante a queima e avaliar como os nutrientes do solo reagem às altas temperaturas, bem como os níveis de partículas no ar que podem causar danos ao sistema respiratório humano

Embrapa Acre
Meio Ambiente

Qual o impacto das queimadas na atmosfera, na regeneração da floresta e no solo da Amazônia?  Para responder estas perguntas, pesquisadores de diversas instituições acompanham, na terça-feira (27 de setembro), às 9 horas, uma queimada controlada em quatro hectares de floresta, no campo experimental da Embrapa Acre (Rio Branco, AC). A atividade faz parte do projeto de pesquisa “Combustão da Biomassa em Florestas Tropicais”, executado desde 2008 no Acre e em Mato Grosso, com o objetivo de definir indicadores sobre o impacto do fogo no ambiente.

Os dados finais da pesquisa permitirão quantificar, entre outros aspectos, os teores de carbono equivalente emitidos durante a queima e avaliar como os nutrientes do solo reagem às altas temperaturas, bem como os níveis de partículas no ar que podem causar danos ao sistema respiratório humano. Segundo o pesquisador da Embrapa Acre, Falberni Costa, as estimativas atuais de emissão de gases de efeito estufa usam fatores de grande variação, indicados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e que precisam ser aferidos em todas as partes do mundo. “É preciso reduzir as incertezas nos fatores de emissão provenientes das diferentes regiões da Amazônia e considerar as características locais. Os resultados do projeto serão de grande importância na elaboração e estruturação de políticas públicas voltadas para o tema”, afirma. 

Uma queimada semelhante, realizada em Cruzeiro do Sul em setembro de 2010, apontou que foram emitidos cerca de 305 toneladas de gás carbônico  para a atmosfera. “O que significa que metade do estoque de carbono armazenado em um hectare de floresta se transforma, com a queima, em gases de efeito estufa. O teste em Rio Branco servirá para refinarmos ainda mais esses índices, e dessa forma, poderemos obter uma média que possa ser utilizada para calcular as emissões do estado”, declara o professor da Unesp, João Andrade de Carvalho Junior, coordenador do projeto.

Antes, durante e pós-queima

O estudo é realizado em diversas fases e inclui uma série de  avaliações antes, durante e depois da queima. Diversos equipamentos instalados em uma torre de 15 metros de altura, na área de pesquisa, ajudam na coleta de informações. Dois meses antes da queima, foi realizado o inventário florestal, para identificação e medicão das árvores e a coleta de amostras de solos. A etapa seguinte foi o corte da floresta. “Os resultados das análises serão comparados e servirão para  aferir a quantidade de carbono, nutrientes e microorganismos permanecem no solo após a queima.  Além disso, será  avaliado o que acontece com a qualidade do ar durante a queima”, diz Costa.

Os pesquisadores também vão acompanhar a dinâmica de regeneração  natural da vegetação e dos nutrientes do solo, nos próximos anos. “Teremos uma área de estudo para um longo período, onde poderemos obter dados sobre como o fogo e as altas temperaturas influenciam o crescimento e mortalidade das espécies”, declara o pesquisador da Embrapa Acre, Marcus Vinicio Neves d’Oliveira, que acompanha, há 20 anos, o desenvolvimento de uma floresta manejada para produção de madeira.

Segundo a equipe do projeto, o local escolhido apresenta o mesmo tipo de solo presente em mais de 30% da área do Estado. “O Acre tem suas políticas públicas centradas no uso intensivo das áreas já alteradas, e na conservação dos 87% de floresta, a partir do manejo de uso múltiplo e proteção integral desses recursos. Para a implantação do Sistema Estadual de Incentivos aos Serviços Ambientais, é fundamental saber com precisão o quanto de carbono deixa de ser emitido  mantendo-se a floresta em pé”, afirma Eufran Amaral, diretor presidente do Instituto de Mudanças Climáticas do Estado do Acre (IMC), uma das instituições que apóiam o projeto.

A pesquisa conta com a autorização da Justiça Federal e Estadual, dos Ministérios Públicos Federal e Estadual e as ações obedecem a exigências legais estabelecidas pelos órgãos de controle ambiental. “O corte da vegetação foi autorizada pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) e pela Secretaria de Meio Ambiente do Acre. Além disso, foram tomados todos os cuidados necessários para garantir a segurança no entorno das áreas onde acontecem as atividades”, afirma o chefe-geral da Embrapa Acre, Judson Valentim.

Coordenado pela Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Campus de Guaratinguetá), o projeto tem a parceria do  Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Embrapa Acre, Universidade Federal do Acre (Ufac), Universidade de Brasília (UnB), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade de Washington entre outras instituições. Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), contempla os Estados do Acre e Mato Grosso, com  investimentos de mais de dois milhões de reais. (Priscila Viudes)