Finaliza essa semana o trabalho de campo dos pesquisadores da Embrapa Acre e das instituições parceiras na Terra Indígena Kaxinawá de Nova Olinda, em Feijó. Profissionais de diversas áreas foram até a comunidade para os levantamentos preliminares da pesquisa, que tem como foco principal a diversificação da oferta de alimentos e a segurança alimentar dos povos indígenas que vivem na região no Rio Envira.
“Essa pesquisa surgiu inicialmente de uma demanda dos Kaxinawás, que queriam apoio para cultivo de plantas rituais e medicinais, como o cipó jagube e a chacrona, utilizadas na produção do ayahuasca, o chá ritualístico. A partir de uma discussão conjunta com os indígenas, elaboramos um projeto mais amplo, com ações que vão contribuir para a autogestão da agrobiodiversidade do local”, afirma o pesquisador da Embrapa Acre, Moacir Haverroth, coordenador do projeto.
A pesquisa, que tem duração de três anos, prevê ações para o desenvolvimento da fruticultura na Terra Indígena, incentivos a criação de abelhas-indígenas-sem-ferrão, avaliação e diagnóstico dos insetos e pragas agrícolas considerados problemáticos pelos indígenas e manejo adequado dentro dos princípios agroecológicos e com respeito às práticas de cultivo dos Kaxinawá.
Segundo o indígena Josias Kaxinawá – Maná na língua Kaxinawá - o projeto será importante para conhecer ainda mais a natureza da Terra Indígena. “Nossa população está aumentando e a terra indígena não aumenta. Queremos aprender mais sobre o modo de usar a terra”, diz ele, que é agente agroflorestal da Comissão Pró Índio (CPI), uma das instituições parceiras.
Nessa primeira viagem, além da integração da equipe com os indígenas, será realizada uma discussão entre a representante da Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof) e a comunidade para a instalação de uma casa de farinha no local. Posteriormente, será realizado um levantamento das variedades de mandioca presentes na Terra Indígena e análise da qualidade da farinha de mandioca produzida pelos indígenas. “Queremos averiguar se há necessidade de apontar formas de melhorar a qualidade deste importante alimento dos indígenas”, afirma Haverroth.
Etnozoneamento
Outra ação que se iniciará nesta etapa do projeto será o mapeamento e zoneamento da Terra Indígena quanto aos solos e a vegetação presente no local. Além dos pesquisadores da Embrapa, profissionais do Instituto de Mudanças Climáticas do Acre (IMC) e da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) vão a campo, orientados pelos indígenas, para mapear as espécies vegetais e coletar amostras de solos.
A ideia é dar continuidade as ações propostas nas oficinas de Etnozoneamento realizadas pelo Governo do Estado. “Essa será uma iniciativa fundamental para que os indígenas realizem a gestão da Terra Indígena”, afirma o presidente do IMC, Eufran Amaral. Também são parceiros do projeto a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac) e a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília, DF).
Indígenas e pesquisa agropecuária
Esse é o segundo projeto de pesquisa da Embrapa Acre, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com populações indígenas. O primeiro foi desenvolvido com os Kulinas do alto Rio Envira, entre 2008 e 2011, e teve o objetivo de relacionar aspectos culturais com informações sobre os cultivos e práticas agrícolas, enfatizando o uso terapêutico de plantas medicinais em dez comunidades.
Com o apoio da Universidade Federal do Acre (Ufac), o projeto identificou e catalogou cerca de 60 espécies nativas e cultivadas no contexto kulina e foram avaliados 64 roçados, com levantamento das espécies cultivadas. “O sistema de cultivo sucessional, em pequenos roçados itinerantes e temporários, utilizado nas aldeias, mescla culturas agrícolas com plantas medicinais. Isto favorece a conservação ambiental na medida em que a escolha de determinadas espécies influencia a recuperação florestal”, afirma Haverroth.