Espaço Rural e as competências da difusão do conhecimento

O problema central de qualquer aprendizagem é fazer com que o novo conhecimento faça parte integrante da conduta diária do aprendiz. Aprender implica em mudança de comportamento. A maneira mais rápida e eficaz de se tentar mudar condutas é utilizar a técnica do learning by doing

José Carlos Caires
Agronegócio

A função de desenvolver o capital intelectual dos indivíduos numa organização rural compete aos Multiplicadores do Conhecimento (MC). Em todas as organizações eles desempenham vários cargos: pesquisador, professor, técnico, gerente, supervisor, chefe, escriturário, etc. Não importa sua posição na hierarquia, qualquer um, desde que tenha o perfil de MC desenvolvido, poderá multiplicar ensinamentos e posturas, em outras palavras – educar. 

Mas como educar nossos alunos, subordinados, colegas ou qualquer pessoa do nosso convívio no meio rural? Nós aprendemos poucas coisas de cada vez. O problema central de qualquer aprendizagem é fazer com que o novo conhecimento faça parte integrante da conduta diária do aprendiz. Aprender implica em mudança de comportamento. A maneira mais rápida e eficaz de se tentar mudar condutas é utilizar a técnica do learning by doing – na qual o indivíduo aprende praticando.
 
Duas constatações merecem atenção: a primeira está preza ao fato de que é muito difícil para o aprendiz, principalmente no espaço rural, separar o puro conhecimento, teoria, do que é eminentemente prático – utilizável. Existe uma tendência universal de se considerar que a teoria na prática é diferente. O fato é que nem sempre o aprendiz consegue entender o que está aprendendo e, o mais importante, não consegue ligar o novo conhecimento às necessidades de crescimento e atingimento de suas metas pessoais ou organizacionais. Portanto, ao ensinando uma tarefa para alguém, precisamos decodificar e adaptar à realidade pessoal, educacional e organizacional o conjunto de conhecimentos que pretendemos transmitir.

Ainda temos outra constatação, a de que quando o indivíduo não tem interesse numa informação, sua atitude é rejeitá-la de imediato. Temos cegueira para aquilo que não nos interessa, mesmo que esteja diante dos nossos olhos.

Podemos, assim, depreender que o MC tem como função tirar a venda dos olhos dos aprendizes e fazer com que eles compreendam qual o significado – para a vida pessoal e profissional – do novo conhecimento a ser adquirido, das novas habilidades a serem desenvolvidas e das atitudes que devem ser assumidas. Assumir o papel do MC significa que devemos desenvolver a atitude de formador de equipe. Todos nós temos, em geral, muita dificuldade para ensinar e possuímos uma enorme intolerância com a ignorância alheia. Ao multiplicarmos ensinamentos e posturas, ou seja, ao mexermos com o comportamento humano, com vistas a aumentar a qualidade e a eficácia de sua atuação, devemos ter em mente, entre outros, os seguintes passos:

 • Ao treinar, além de ensinar – eduque;
 • Estabeleça relações entre o conteúdo a ser aprendido e as metas pretendidas;
 • Faça com que os aprendizes pratiquem as novas ações aprendidas;
 • Tente reduzir o conflito entre teoria e prática;
 • Prepare multiplicadores (colaboradores) para os ensinamentos – só existe valor nos ensinamentos quando eles podem ser repassados a terceiros;
 • Reduza a resistência ao fato novo ou desconhecido;
 • Leve, sempre, os alunos (treinandos) à reflexão – motive-os;
 • Mostre aos treinandos os benefícios dos novos ensinamentos;
 • Utilize o bom senso nas orientações práticas;
 • Não faça dezenas de slides (transparências), nem dê somente aulas teóricas;
 • Faça do aprendizado um ato de compreensão e aceitação das limitações dos treinandos;
 • Valorize, sempre, o interesse e dedicação dos treinandos (alunos);
 • Forneça aos treinandos feedback (retorno) de suas atuações;
 • Tenha certeza de que os alunos (treinandos) entenderam as orientações práticas;
 • Faça simulações e dramatizações onde os aprendizes possam praticar as orientações recebidas;
 • Valorize os erros dos treinandos (alunos) – a liberdade para errar ajuda no aprendizado;
 • Corrija – de imediato – os desvios de aprendizagem dos treinandos, alunos aprendizes e outros.

Abaixo apresentamos o Modelo de Eficácia do Multiplicador que serve para dar uma visão geral do papel que cada multiplicador terá que desenvolver para repassar ensinamentos e posturas, a outros indivíduos, com a finalidade de aumentar a eficácia das tarefas aprendidas durante o processo de aprendizagem. O modelo é representado graficamente por uma roda onde as habilidades, em número de oito, são apresentadas de forma esquemática, facilitando assim a identificação e compreensão das mesmas.

O que se afigura de extrema importância é que as habilidades sejam de fato desenvolvidas por todos aqueles que tenham a nobre função de facilitador do processo ensino-aprendizagem.

Vejamos agora o que significa cada uma das oito habilidades que caracterizam o papel do Multiplicador.

COMUNICAÇÃO – habilidade em ouvir e transmitir mensagens.
FLEXIBILIDADE – habilidade em utilizar a experiência do educando.
EMPATIA – habilidade em colocar-se no lugar do outro.
POSTURA – habilidade em educar.
PERSUASÃO – habilidade de convencer através de argumentos.
AÇÃO ESTRATÉGICA – habilidade em usar técnicas e recursos instrucionais.
VISÃO GLOBAL – habilidade em perceber o todo.
PERCEPÇÃO REALÍSTICA – habilidade em perceber a si e aos outros.

Modelo de eficácia do multiplicador