Um estudo inédito no Brasil pode alavancar a atividade canavieira em áreas de expansão de cultivo que sofrem com a falta de água. Desde 2007, pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) fazem a caracterização das variedades nacionais de cana-de-açúcar. O objetivo é indicar as cultivares mais resistentes ao estresse hídrico e entender os mecanismos que as plantas usam para se defender da deficiência. O trabalho, feito através de análises morfológicas e fisiológicas, já avaliou 18 variedades brasileiras. Após três anos de experimentos, os materiais que apresentaram maior resistência e mantiveram os processos fisiológicos essenciais sem grandes perdas durante o estresse foram: RB86-7515, SP80-1842, SP81-3250 e SP83-2847.
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Nos últimos 15 anos, foram lançadas mais de 100 cultivares, mas nenhuma delas foi avaliada quanto à resistência à deficiência hídrica. Essa lacuna de informação se deve ao fato de que as instituições de pesquisa, tanto públicas quanto privadas, direcionavam seus programas de melhoramento para o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes a doenças. No entanto, com o surgimento de novas regiões de cultivo da cana, surgiu também a necessidade de se incorporar novas características às plantas. A descrição das variedades quanto ao estresse hídrico servirá para orientar o produtor na escolha da cultivar, de acordo com as condições de sua região.
— Esse tipo de caracterização ou descrição das variedades é importante porque, até então, não existe conhecimento em cima dessas variedades. As variedades que estamos estudando passaram por um processo de seleção dentro dos seus programas de melhoramento, mas nesse processo não houve uma caracterização especial para as novas áreas que estão se expandindo no Brasil, como os Estados de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais. São regiões com característica de deficiência hidrica que dura de quatro a seis meses ao ano — explica o engenheiro agrônomo Marcelo de Almeida Silva, da APTA, à frente das pesquisas.

Para explorar as características das variedades, o estudo considera questões morfológicas e fisiológicas que indiquem uma maior capacidade de economizar água. Morfologicamente, são avaliados a manutenção das folhas verdes e da área foliar, o aumento do número de estômatos na face abaxial da folha e a altura da planta. Em relação à fisiologia, são verificados dados sobre a florescência da clorofila, a condutância estomática, o conteúdo de teor relativo de água na folha e o seu potencial hídrico. Todas essas características, de acordo com Silva, são variáveis que conferem ou estão relacionadas à tolerância ao estresse hídrico.
— Através dessa psesquisa, poderemos saber o que a planta está utilizando para se defender, para formar produção num ambietne de estresse. Isso pode ser usado como um feedback para orientar seleções de futuras variedades nos programas de melhoramento que estão hoje em curso — diz.
O trabalho de caracterização de cultivares nacionais já foi feito com outras culturas, como milho, soja e girassol. A ideia de empregar essa técnica na cultura da cana-de-açúcar surgiu em 2006, quando Marcelo Silva participou de um treinamento de pós-doutorado nos EUA. O trabalho, pela APTA e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), será apresentado no II Simpósio Brasileiro sobre Ecofisiologia, Maturação e Maturadores da Cana-de-Açúcar (Simcana), que acontece de 19 a 21 de outubro, em Botucatu (SP).