Estudo investiga bactéria do moko da bananeira em SE

Moko pertence ao grupo que representa as doenças e pragas consideradas pelo Mapa como de importância econômica potencial e já presentes em quase todo o País

Saulo Coelho, Embrapa Tabuleiros Costeiros
Sanidade Vegetal

O projeto de pesquisa de pós-doutorado desenvolvido pelo fitopatologista e bolsista da Capes, Christtianno Rollemberg, sob co-orientação da pesquisadora Dulce Warwick, da Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju, SE), irá investigar a bactéria Ralstonia solanacearum raça 2, agente causal do moko da bananeira.

Realizado através de bolsa da Capes, em parceria com o Governo do Estado de Sergipe, por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec/SE) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS) pelo Programa de Apoio ao Pós-Doutorado no Estado de Sergipe, o estudo tem foco na detecção, diversidade e controle alternativo da bactéria, considerada uma das mais danosas do mundo para diversas culturas.

Enquanto na Amazônia doença evolui do rizoma para as partes aéreas da planta, em Sergipe, bactéria acomete flores e frutos principalmente

Rollemberg pretende detectar e isolar o agente para estudar sua variabilidade patogênica e genética e esclarecer a identidade da bactéria em Sergipe. O bolsista pretende, ainda, estudar o controle do moko da bananeira utilizando método alternativo visando subsidiar programas de controle da doença no estado, onde a Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), que realiza monitoramento desde 1987, verifica sua ocorrência nos municípios de Neópolis e Propriá, no território do Baixo São Francisco Sergipano, importantes áreas de produção de banana.

O projeto, com duração de três anos, irá detectar bactéria na água de irrigação e em insetos presentes na cultura, como a abelha arapuá (Trigona spinnipes), estudar a sua diversidade e ainda buscar desenvolver um controle alternativo por meio de uso de óleos essenciais. “Pretendemos observar se o óleo em si possui algum princípio ativo que seja bactericida ou bacteriostático, e também verificar se o óleo será capaz de agir como um indutor de resistência da planta à bactéria”, explica Christtianno.

Um fato curioso observado em Sergipe, segundo o fitopatologista, é que o moko da bananeira tem acometido principalmente as flores e frutos da planta, diferentemente do que ocorre na Amazônia, por exemplo, onde a doença evolui a partir do rizoma (espécie de caule da bananeira) para a parte aérea.

Coordenado pelo professor do Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas da UFS (NEREN), Luis Fernando Ganassali de Oliveira Junior, o projeto tem apoio de diversas instituições e pesquisadores. A Embrapa auxiliará nos trabalhos de campo e coleta de material, a Emdagro fornecerá o cadastro com a identificação das áreas de ocorrência, e a UFS realizará as análises laboratoriais.

Concederão apoio técnico-científico o pesquisador do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad), da França, Philippe Prior – o maior estudioso da Ralstonia solanacearum no mundo, e a professora e pesquisadora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Rosa de Lima Ramos Mariano – uma das grandes bacteriologistas do Brasil. O estudo tem, ainda, a colaboração dos professores do Departamento de Agronomia da UFS, Arie Fitzgerald Blank, Maria de Fatima Arrigoni Blank e Paulo Roberto Gagliardi.

Doença
A Ralstonia solanacearum, causadora do moko da bananeira, é considerada uma bactéria quarentenária de nível A2 pelo Ministério da Agricultura. O grupo A2 representa as doenças e pragas de importância econômica potencial, já presentes no país, que não se encontram amplamente distribuídas e possuem programa oficial de controle.

A bactéria é capaz de causar danos em cerca de 450 espécies de plantas pertencentes a mais de 54 famílias botânicas, entre as quais culturas de alto valor econômico, como banana, tomate, batata, berinjela e pimentão.

Ferramentas infectadas são uma das principais formas de disseminação da doença

Por ser uma bactéria muito variável e adaptada a uma grande gama de hospedeiros e condições climáticas, a Ralstonia solanacearum tem sido classificada em cinco raças e seis biovares (variantes de uma mesma espécie que apresentam diferenças fisiológicas ou bioquímicas). Com o advento das técnicas moleculares, a sua classificação foi revisada, e atualmente é considerada um complexo de espécies, sendo classificada em filotipos (I-IV), sequevares (1-51), clones ou linhagens clonais e biotipos (1-11).

A disseminação da Ralstonia solanacearum raça 2 pode ocorrer de diferentes formas, entre as quais se destacam o uso de ferramentas infectadas durante os tratos culturais, contato entre raízes e entre solo-raiz, mudas infectadas, água de superfície, insetos visitadores de inflorescências, como as abelhas, vespas e moscas das, nematóides e o homem.

O agente é um patógeno altamente destrutivo, ocasionando sintomas em todos os órgãos da planta, que podem refletir na perda total da produção. Os sintomas do moko da bananeira manifestam-se principalmente por murcha, amarelecimento e necrose das folhas.

O controle de Ralstonia solanacearum é extremamente difícil, principalmente devido à ampla gama de hospedeiros, alta variabilidade genética e sobrevivência no solo por longos períodos a grandes profundidades, tornando o controle químico inviável e anti-econômico. Os métodos de controle existentes estão baseados em práticas culturais, como eliminação de ráquis florais e de plantas ou materiais vegetativos contaminados.

Entretanto, para o moko não existem medidas de controle eficientes ou cultivares de bananeiras resistentes disponíveis que tenham qualquer nível de resistência ou tolerância à doença, sendo, então, tomadas medidas de exclusão, que visam impedir que a doença atinja novas áreas.