Dois pós-graduandos ligados ao Módulo de Cogumelos da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp estiveram na China, entre 17 de maio e 11 de julho, para participar de um curso oferecido pelo Instituto Jun Cao, ligado à Fujian Agriculture and Forestry University.
Meire Cristina Nogueira de Andrade, aluna de pós-doutorado e Fabrício Rocha Vieira, aluno de mestrado, ambos do Programa Energia na Agricultura, orientados pela professora Marli Minhoni, foram os únicos pesquisadores brasileiros presentes ao evento, que teve 41 participantes de 26 países.
O curso foi patrocinado pelo Ministério do Comércio da República Popular da China e teve o objetivo principal de divulgar a tecnologia Jun Cao que, pelo seu baixo custo, facilita a implantação da cultura em países sem tradição no cultivo de cogumelos. “É uma forma econômica de produção de cogumelos que se encaixa bem para sistemas de agricultura familiar no Brasil”, explica Meire. “A tecnologia utiliza gramíneas como matéria prima no preparo do substrato do cultivo do cogumelo. Como o Brasil tem uma grande quantidade e variedade de gramíneas, isso reduziria os custos”.
Na China, a tecnologia tem ajudado a solucionar problemas de abastecimento e auxiliado a produção sustentável de energia. “A partir da gramínea é possível alimentar animais e produzir os cogumelos. O importante da técnica Jun Cao é a integralização do sistema, com bons resultados na alimentação humana, alimentação animal, além da produção de energia através do biogás”, ressalta Fabrício. “O curso também abordou tecnologias de cultivo holandesas e japonesas. Mas o destaque foi a difusão desse método de cultivo fácil, barato e com grande viabilidade para países como o Brasil”.
As aulas foram ministradas por professores de algumas das universidades mais importantes da China e incluíram visitas a empresas, fazendas produtoras de cogumelo, universidades e centros de pesquisa. “De forma prática, tivemos contato com as principais espécies de cogumelos cultivadas no mundo”.
Para participar do curso, os alunos da FCA passaram por uma seleção realizada pela embaixada da China no Brasil e ocuparam as duas únicas vagas destinadas ao Brasil.
Agora, a intenção deles é utilizar a experiência em pesquisas e divulgar a técnica para produtores e pessoas interessadas em iniciar essa atividade de cultivo. “O Módulo de Cogumelos desenvolve muitas atividades de extensão. Constantemente, vamos até o produtor, ouvir seu problema e buscar soluções através da pesquisa”, afirma Meire. “Temos a preocupação de transmitir conhecimento para a sociedade”.
Pioneiro
Meire e Fabrício, no entanto, não foram os primeiros estudantes ligados ao Módulo de Cogumelos da FCA a participar de um curso de capacitação na China. Em 2010, João Paulo Furlan de Jesus participou de um curso de 28 dias voltado para o desenvolvimento da indústria Jun Cao em países em desenvolvimento.
Na ocasião, o curso era destinado apenas a doutores. Através do envio de seu currículo e cartas de recomendação, João, que na época cursava o mestrado, foi autorizado pelo Ministério do Comércio da China a participar. “Havia representantes de 34 países e eu fui o único brasileiro”, conta. “O principal foco foi utilizar a fungicultura para a erradicação da fome. Por isso, o curso possibilitou conhecer as formas de cultivo e as aplicações dos cogumelos na China”.
Parceria e expansão
Além de capacitar os pesquisadores para a aplicação da técnica, o curso teve o intuito de fomentar parcerias internacionais, de cunho comercial ou acadêmico, com instituições interessadas em implantar unidades de produção de cogumelos. “Temos a intenção de formalizar através da Assessoria de Relações Externas (Arex) da Unesp um convênio com a Fujian Agriculture and Forestry University e o Instituto Jun Cao”, conta Fabrício. “A idéia é promover atividades de intercâmbio entre pesquisadores dos dois países”.
A expectativa é que uma parceria entre as instituições chinesas e a Unesp fortaleça ainda mais as atividades do Módulo de Cogumelos da FCA, hoje uma das principais referências em pesquisa na área de fungicultura no Brasil.
A China é responsável por 65% da produção mundial de cogumelos que são utilizados na medicina tradicional e na culinária há milhares de anos. O Brasil está longe de figurar entre os principais produtores do mundo, mas a fungicultura ainda tem potencial para crescer. “Mesmo havendo uma grande variedade de carnes e grãos no Brasil, existe a tendência de incrementar a produção de cogumelos, tanto os medicinais como os comestíveis”, analisa Fabrício. “O futuro da cultura é promissor pela pouca necessidade de espaço físico para o cultivo e a possibilidade de reciclagem de matérias primas, num curto espaço de tempo”.