Infravermelho detecta contaminantes em grãos

Contaminação dos grãos pode comprometer a qualidade final dos alimentos, seja por meio de resíduos e impurezas, ou mesmo por causa de micotoxinas que podem ser acumuladas ainda na lavoura

Joseani M. Antunes, Embrapa Trigo
Sanidade Vegetal

Método prático executado por equipamento portátil tem sido utilizado com êxito para avaliar a qualidade e detectar contaminantes em grãos como arroz, milho, trigo e soja. Por meio da técnica chamada NIRS, sigla em inglês de "espectroscopia no infravermelho próximo", pesquisadores têm conseguido detectar com precisão e economia contaminantes presentes nesses alimentos.

Os dispositivos portáteis NIRS permitem realizar análises fora do laboratório, de forma mais rápida e com menor custo. "Os resultados de determinações de qualidade de grãos podem ser gerados pelo próprio técnico, no local onde o produto é obtido, no campo ou na indústria, sem destruir a amostra e em tempo real. Isso inverte o caminho de obter a amostra e entregar ao laboratório. Com os NIRS portáteis o ‘laboratório' vai até a amostra, melhorando e agilizando o acesso a informações para a tomada de decisão", explica o pesquisador da Embrapa Algodão (PB) Everaldo Paulo de Medeiros.

As avaliações por meio do NIRS fazem parte do projeto Métodos Rápidos para Avaliar Indicadores de Qualidade Tecnológica e Contaminantes em Grãos, liderado pela Embrapa Trigo (RS) e executado em colaboração com cooperativas, indústria de alimentos e outros centros de pesquisa da Embrapa. A contaminação dos grãos pode comprometer a qualidade final dos alimentos, seja por meio de resíduos e impurezas, ou mesmo por causa de micotoxinas que podem ser acumuladas ainda na lavoura.

O NIRS é um método de alta precisão que analisa alimentos por meio de radiação eletromagnética. A técnica é uma integração da espectroscopia e quimiometria (estatística associada a dados químicos) que trata os dados obtidos gerando curvas de calibração e de validação. "Os métodos baseados em espectroscopia têm recebido atenção, especialmente devido à preparação mínima da amostra, rapidez, otimização de mão de obra e baixo custo. O tempo de análise requer dois minutos e o custo limita-se à manutenção periódica do equipamento", explica a pesquisadora da Embrapa Trigo Casiane Tibola.

Custos operacionais menores
Além da portabilidade e facilidade de operação, o preço também é um diferencial nos equipamentos, de acordo com Medeiros, da Embrapa Algodão. "O instrumento que estamos avaliando é de 30 a 70 vezes mais barato do que outros disponíveis no mercado, além de não depender de instalações físicas de laboratório para realização do trabalho", compara. Segundo o pesquisador, o instrumento que a Embrapa está testando custa U$ 1 mil, enquanto um similar chega U$ 30 mil. Um equipamento de bancada (estático) custa U$ 72 mil, ou seja, daria para comprar 30 ou 70 unidades de dispositivos portáteis.

Além disso, os NIRS portáteis resultam em menor impacto ambiental, sem o uso de reagentes, geração de resíduos e menor exposição dos colaboradores a condições insalubres. "Obviamente os instrumentos estáticos de laboratório tendem a produzir melhores resultados sem as interferências do ambiente externo, mas os equipamentos portáteis têm apresentado uma série de vantagens", conclui o pesquisador.

Nas empresas e cooperativas, o método NIR está sendo adotado para monitoramento online de lotes de soja e derivados, permitindo agilidade na obtenção de resultados e economia na realização das análises. As principais funcionalidades são para quantificar teores de proteína, umidade e óleo. "A pesquisa está verificando para quais parâmetros de qualidade dos grãos o NIR apresenta melhor desempenho em relação aos métodos tradicionais de análise", conta a pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo Maria Lúcia Simeone.

Conforme a pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo (MG) Maria Lúcia Simeone, a técnica de espectroscopia NIR foi reconhecida como uma poderosa ferramenta para análises quantitativas e qualitativas de parâmetros químicos e físicos. "Sua propagação nos vários ramos da indústria pode ser atribuída principalmente à sua habilidade para processar amostras com mínima ou nenhuma manipulação analítica. Mas, para que a técnica seja empregada com boa acurácia e precisão, a cada característica de interesse, é necessário realizar a construção de um bom modelo multivariado de calibração", explica a pesquisadora.

Aplicações do NIRS

As principais aplicações do NIRS no Brasil são na indústria farmacêutica, de combustíveis e de polímeros, além da agricultura. Na Embrapa Trigo, o NIR tem sido utilizado para análise de qualidade tecnológica de trigo. Dessa forma, grãos e derivados são avaliados em características como umidade, glúten úmido, teor de óleo, proteína, aminoácidos, ácidos graxos, entre outras. Um novo equipamento adquirido recentemente, o NIR hiperespectral, será utilizado para detectar grãos com sintomas de giberela na predição dos níveis de micotoxinas, além de grãos germinados e fragmentos de insetos.

Ajustando a metodologia
Um workshop realizado em maio, em Passo Fundo (RS), reuniu colaboradores do projeto com a finalidade de discutir o tratamento de dados gerados no uso do NIR e compartilhar resultados na troca de experiência entre os usuários. "Neste momento, estamos priorizando o desenvolvimento, a adaptação e a validação das metodologias, por isso as informações e os encontros são restritos aos colaboradores. Posteriormente, vamos compartilhar com a cadeia produtiva para ampliar a adoção dos equipamentos em estratégias que assegurem a qualidade final dos alimentos", acrescenta a pesquisadora da Embrapa Trigo Casiane Tibola.

O projeto prioriza quatro culturas: trigo, arroz, soja e milho e envolve as Unidades da Embrapa: Trigo, Milho e Sorgo, Soja e Clima Temperado. Além dessas, o tratamento estatístico e matemático dos dados conta com a colaboração da Unicamp da Universidade Federal da Paraíba e outras três Unidades da Embrapa: Algodão, Informática e Instrumentação. A cadeia produtiva envolvida com esses grãos também está colaborando na divulgação e na validação das tecnologias.