Integração lavoura, pecuária e floresta: pesquisa avança rápido, mas ainda há muitos desafios

"Avançamos bastante, mas também verificamos que há muito por fazer nas condições do subtrópico brasileiro", resume pesquisadora do Iapar

Iapar
Integração Lavoura Pecuária

Mais de 80 pesquisadores e estudantes de pós-graduação se reuniram em Ponta Grossa, no último dia 25, para discutir os resultados de uma pesquisa sobre integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF) conduzida na Estação Experimental Fazenda-Modelo, unidade do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). O projeto completou seis anos e envolve especialistas da Embrapa Florestas, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

“Avançamos bastante, mas também verificamos que há muito por fazer nas condições do subtrópico brasileiro”, resume Laíse Silveira Pontes, pesquisadora do Iapar e coordenadora técnica da reunião.

O professor Aníbal de Moraes, da UFPR, concorda que há carência de informações, mas lembra que “elas estão aparecendo de forma mais acelerada ultimamente”. Já o pesquisador Vanderley Porfirio da Silva, da Embrapa Florestas, enfatiza a necessidade de promover mais estudos regionalizados. “As apresentações neste evento são uma demonstração clara que podemos evoluir rapidamente”, disse.

Resultados e desafios – De acordo com o professor Paulo Cesar de Faccio Carvalho, da UFRGS, o trunfo da integração lavoura, pecuária e floresta é sua base conceitual sólida, pautada na diversificação, reciclagem e eficiência no uso dos recursos naturais. “Sistemas que buscam produtividade com diminuição da diversidade estão fadados ao fracasso”, vaticina.

Dividindo o mesmo espaço – de forma simultânea ou em sucessão –, as espécies utilizadas no ILPF partilham água, luz e nutrientes. Por isso, além de compreender os efeitos dessa competição, um desafio da pesquisa é entender interações e complementaridades, visando definir estratégias de manejo do sistema como um todo – e não apenas de cada componente de modo isolado.

O uso e manejo das árvores no sistema é ainda um dos tópicos mais carentes de informação. Espécies e cultivares, espaçamento, épocas de corte e produtividade são, dentre outros, alguns exemplos de temas que demandam estudos, segundo os especialistas.

Os pesquisadores também concordam que forrageiras e culturas de grãos (soja e milho) produzem menos nos sistemas ILPF. Aqui, é necessário investir em pesquisas sobre técnicas de manejo, tanto das árvores quanto das culturas, e no melhoramento genético, buscando cultivares tolerantes à restrição de luz e mais eficientes no aproveitamento de nutrientes e água.

No caso das forrageiras, os pesquisadores anotaram que a menor produção é equilibrada pelo aumento de produtividade na exploração pecuária, obtida principalmente pelo conforto térmico que a sombra das árvores possibilita aos animais.

Permanece, no entanto, a dúvida sobre as culturas de grãos. Os especialistas acreditam que a perda de produtividade das lavouras é compensada pela produção de madeira, mas esse balanço somente será possível com o corte das árvores, previsto para 2015, quando o projeto chega ao final do ciclo. Nesse aspecto, o desafio extrapola a área de ciências agrárias – “faltam estudos econômicos”, informa a pesquisadora Laíse Pontes, do Iapar.

A pesquisadora alerta, no entanto, que a proposta do ILPF aponta igualmente para a mudança conceitual na avaliação da rentabilidade, considerando os ganhos com a diminuição da emissão de gases de efeito estufa, melhoria no condicionamento do solo, aumento do conforto animal, preservação de cursos de água e a possibilidade, real, de auferir renda por intermédio da prestação de serviços ambientais. “Importante é a diversificação, é aprender a manejar o sistema para aumentar a complementaridade entre seus componentes”, conclui Laíse Pontes.

O “Encontro sobre Integração Lavoura, Pecuária e Floresta” reuniu pesquisadores das instituições parceiras no projeto conduzido na Estação Experimental Fazenda-Modelo (Iapar, Embrapa Florestas, UFPR, UFRGS e UEPG), além de especialistas convidados de universidades, centros de pesquisa e entidades governamentais do sul do Brasil.