Javali: uma ameaça subestimada pelo agronegócio

Apesar da ameça de destruição de cultivos e transmissão de doenças, a caça ao javali é proibida no Brasil

Rafael Augusto Salerno
Agronegócio

O javali, um animal de origem europeia que invadiu o país via países vizinhos e criadores ilegais, tem desafiado muitos proprietários rurais e suas comunidades, onde a população rural se sente ameaçada por estas feras. Em MG uma pessoa já morreu e corre-se o risco de ser só o primeiro caso [i].

Este animal foi introduzido nos países vizinhos, bem como em outros continentes, com o objetivo de promover a caça esportiva. O problema é que, devido à falta de predadores naturais, ao cruzamento com espécies comerciais de porco - o que lhes conferiu maior eficiência alimentar -, grande aumento de peso e altas taxas reprodutivas, que transformaram esta praga em uma fera enorme e sem controle, no Brasil já foram abatidos animais de mais de 200 kg.

Em todos os países onde este animal foi introduzido ou mesmo é nativo é considerada uma praga. Na Alemanha, um país que já passou por duas guerras mundiais, os mesmos animais invadiram até a capital Berlim onde, em 2008, foram mortos 3000 animais, sendo 500 no centro da cidade. E em novembro deste ano um morador morreu devido aos ferimentos provocados por um javali. [ii]

Nos EUA é conhecida como “Pig Bomb" [iii] a explosão populacional mundial dos javalis e seus híbridos soltos asselvajados, conhecidos também como javaporcos, aqui ou “feral hogs”, por lá. Estima-se que estes animais causem danos da ordem de US$ 800 milhões na produção de commodities agrícolas [iv], destruindo plantações, recursos naturais ou mesmo comendo pequenos animais. Por todo o país há relatos de ataques de javalis, inclusive casos fatais, o que tem causado o combate incessante, uma vez que, devido a sua alta taxa de reprodução, que possibilita dobrar a população a cada quatro meses [v], os órgãos de extensão descobriram que mesmo com o abate ou captura anual de até 70% dos animais, ainda não conseguiriam reduzir a sua população. Por lá, dizem que eles destroem as plantações e o meio ambiente “comendo como porcos, mas se reproduzindo como ratos”. Em casos extremos são contratados serviços de captura, remoção e abate ao custo médio de USD 230 ou cerca de R$ 400,00 por animal.

No Brasil a situação é ainda mais delicada, pois ameaça o pilar de nossa economia que é o agronegócio, por meio de destruição de cultivos, e ameaça de transmissão de doenças aos rebanhos e ao ser humano. Uma das ameaças é a disseminação de aftosa e leptospirose, o que poderia causar embargos comerciais e incalculáveis prejuízos financeiros ao país. O último foco de aftosa no RS, em 2000, levou ao sacrifício 11 mil animais [vi]. O embargo devido ao último foco surgido no MS levou a um prejuízo estimado em R$ 1,7 bilhões [vii], mostrando que há muitas empresas, empregos, pessoas e famílias em jogo para correr o risco de conviver com estes animais.

No entanto o IBAMA proibiu a caça destes animais, que entraram pelo Sul do país e estão dia a dia avançando, já estando presentes no PR, SP, MG e até no MT. Ao invés de proibir, o governo deveria liberar totalmente o abate deste animal exógeno, invasor e declaradamente nocivo, permitindo o controle destes animais pela população, como legalmente é feito com os ratos, que também são mamíferos exógenos, invasores e nocivos, pois causam danos econômicos, ambientais e transmitem doenças. No entanto não é necessária nenhuma licença de caça ou autorização legal para controlá-los simplesmente porque são considerados animais NOCIVOS para fins legais.

Enfim, o IBAMA se encontra agora decidindo o futuro do controle desta praga em solo nacional e a sugestão para este problema complexo é bastante simples, bastaria publicar uma Instrução Normativa com a primeira lista de animais exógenos, invasores e nocivos do país, sendo assim como os ratos, passíveis de controle por pessoas físicas ou jurídicas devidamente habilitadas para tal atividade, sem a necessidade de autorização do órgão ambiental competente.

Por lei, o abate de animais nocivos não é crime, pois são animais que interagem de forma negativa com a população humana, causando transtornos significativos de ordem econômica ou ambiental, ou que represente riscos à saúde pública. Nesta lista poderiam entrar não só o Javali, mas todas as espécies da lista nacional de espécies invasoras [viii] e exógenas, como o pombo doméstico (transmissor de mais de 50 doenças), pardais, os búfalos do Guaporé, em Rondônia, e demais seres que tanto mal tem causado ao nosso meio ambiente, economia e saúde pública.

[i] http://noticias.r7.com/videos/javalis-se-tornam-ameaca-para-moradores-do-triangulo-mineiro/idmedia/4fc56ac6eb3d0224dd4537a2d2a22dd7.html

[ii] http://www.stumbleupon.com/su/9Bp1ex/www.estadao.com.br/noticias/geral,berlim-permite-caca-de-javalis-no-centro-da-cidade,352998,0.htm/r:t

[iii] http://www.youtube.com/watch?v=rFFEjEnupZ8&p=C652C731E5C5A9ED&index=2

[iv] http://www.oregon.gov/OISC/docs/pdf/swine_ra.pdf?ga=t

[v] http://icwdm.org/publications/pdf/feral%20pig/txferalhogs.pdf

[vi] http://milkworld.com.br/noticias/post/rs-ultimo-foco-de-aftosa-levou-ao-sacrificio-de-11-mil-animais

[vii] http://www.agroboi.com/index.php?pag=noticiasexibe.php&&id=109

[viii] http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_esp%C3%A9cies_invasoras_no_Brasil