O setor produtivo de leite reitera ao governo federal a necessidade de adoção de medidas em defesa da pecuária nacional, de forma a garantir renda ao produtor, produtos a preços acessíveis ao consumidor brasileiro e superávits na balança comercial. Em reunião realizada nesta quarta-feira (11), entre representantes das Federações da Agricultura e Pecuária de Goiás, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, foi discutida a busca por maneiras para a cadeia enfrentar uma das mais graves crises vividas pelo setor. Os cinco Estados respondem atualmente por 68% da produção nacional.
Em plena entressafra, os valores recebidos pelos produtores no Brasil caíram em média 6% em julho em relação a junho, enquanto a grande maioria dos produtos lácteos teve alta de preço no mesmo período. Segundo o coordenador de Programas Especiais do Sistema Faeg/ Senar e representante da entidade na reunião, Marcelo Martins, não há justificativa aceitável para um novo recuo nos valores do leite, uma vez que produtos lácteos, como o queijo e o leite em pó, tiveram os preços elevados no último mês em até 1% no mercado nacional. “O único produto que obteve redução no valor final foi o leite longa vida, com recuo de 3%, metade do ocorrido nos preços pagos ao produtor”, acrescentou Martins.
Em Goiás, pesquisa realizada pela Secretaria de Planejamento do Estado de Goiás (Seplan), referentes aos Índices de Preço aos Consumidor (IPC), mostra que os valores do leite em pó e dos queijos, também seguem a tendência nacional. Nos últimos três meses o leite em pó teve aumento de 3% e o queijo mussarela, 4%. Somente o leite longa vida teve queda, de 9,5%. No mesmo período, a queda para o produtor goiano foi de 13%.
Comércio exterior
Entre os motivos da crise no setor estão os sucessivos resultados negativos da balança comercial de lácteos. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), o País enviou ao exterior no mês de julho US$ 13,4 milhões e importou US$ 28,7 milhões, déficit de US$ 15,3 milhões. No acumulado do ano, o déficit é de US$ 85,8 milhões, valor 108,3% maior que no mesmo período do ano passado. A melhora nos preços das commodities lácteas em relação ao ano passado, contribuiu para elevar o valor das importações, porém não foi atrativo suficiente para ampliar as exportações, que caíram 27,23% em volume, nos primeiros sete meses do ano.
Segundo o Presidente do Sistema FAEG/SENAR, José Mario Schreiner, a política macroeconômica que mantém elevada a taxa de juros e como conseqüência à valorização do real, inviabiliza as exportações. Ele explica que é lamentável jogar por terra todo o investimento feito pelo setor para se tornar grande player no mercado internacional de lácteos. A atual política internacional também não favorece ao setor. Recentemente, as licenças de importações não automáticas do Uruguai, que garantiram a contenção de surtos de importação de leite em pó, foram revogadas. A situação se agrava à medida que as exportações de soro e leite longa vida vem crescendo.
Somente no mês de julho entraram no País 4,5 mil toneladas de soro. O volume é 86% superior a média do ano passado. A elevada importação preocupa o setor, pois o Brasil é auto-suficiente na produção de soro, o que não justifica o volume importado. Na última semana a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) solicitou ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o rastreamento do soro importado com o objetivo de coibir fraudes. Também demandou a aplicação de quotas de importação para os produtos lácteos uruguaios aos moldes do acordado com a Argentina.
Se o governo não atender às reivindicações do setor, o período de safra no Centro-Sul, que começa em outubro, será ainda pior. Com o mercado inchado pela maior produção interna e importações, o produtor brasileiro ficará mais desestimulado a investir na atividade.
Segundo a presidente da Associação das Donas de Casa de Goiás, Maria das Graças dos Santos, as oscilações bruscas que têm ocorrido no preço do leite não favorecem o consumo. Ela explica que as promoções realizadas pelos supermercados favorecem o consumidor no primeiro momento, porém, não se sabe se no dia seguinte o preço poderá variar de R$ 0,99 o litro, para R$ 3.
Maria das Graças afirma que, para que o consumo seja uniforme os preços do litro de leite têm que ser equilibrados. “O desestímulo do produtor devido a baixa remuneração nos preocupa enquanto consumidoras, pois isso pode provocar no futuro a diminuição do produto no mercado, e por consequência resultar em aumento nos valores cobrados pelo litro do leite”, resume.