Limitações e avanços tecnológicos na indústria da cana-de-açúcar

A cultura assume posição de destaque no cenário agroindustrial brasileiro

Hélio Francisco da Silva Neto, Marcos Omir Marques, Joana Diniz Rosa da Silva, Luiz Carlos e Tasso Júnior
Melhoramento genético

A cultura da cana-de-açúcar assume posição de destaque no cenário agroindustrial brasileiro. Os diversos programas de melhoramento genético existentes possibilitam a obtenção de inúmeros cultivares de cana, adaptados a diferentes ambientes de produção, desde solos menos férteis e com moderada deficiência hídrica até solos mais ricos com as condições ideais de cultivo, como os encontrados principalmente na região de Ribeirão Preto e Catanduva, Estado de São Paulo.

Tais programas visam a obtenção de genótipos que proporcionem, dentre outras características, maior produção agrícola, e acúmulo de sacarose. Para isso, fazem uso de diversas avaliações de campo (desde o preparo da área e plantio até a colheita da cultura) e de análises tecnológicas voltadas especialmente à parte industrial. Neste contexto, as avaliações de campo sempre estiveram presentes no manejo varietal, desde o ano de 1934 quando Aguirre Júnior iniciou no Brasil os estudos para seleção de cultivares mais produtivos. Da mesma maneira, nas décadas de 40 e 50 deu-se início aos primeiros programas de cruzamento entre genótipos específicos resultando em cultivares desenvolvidos pela Estação Experimental de Campos e Instituto Agronômico de Campinas, siglas CB e IAC, respectivamente.

Entretanto, as variáveis analisadas contemplam, em sua maior parte, aspectos relacionados à parte agrícola, ficando a parte industrial atendida apenas pelos levantamentos das variáveis tecnológicas tradicionais. Muito foi conquistado desde a criação do Consecana (Conselho formado por representantes de fornecedores de cana e da indústria). Este órgão normativo foi o responsável pela elaboração do atual sistema de pagamento de cana pela qualidade da matéria-prima, entregue pelos produtores agrícolas às unidades processadoras, o qual é denominado de Sistema de Remuneração da Tonelada de Cana pela Qualidade/Consecana.

Este sistema, criado em 1998, tem sofrido inúmeras alterações, fazendo com que atualmente o valor pago pela tonelada de cana seja realizado com base na ATR (Açúcar Total Recuperável), o qual é calculado por uma fórmula paramétrica, em que se considera a qualidade da cana e os preços médios de mercado dos produtos fabricados pela usina (açúcar e etanol) no mercado interno e internacional. Para a avaliação desta qualidade são realizadas as análises tecnológicas na cana, tais como brix, pol, fibra e açúcares redutores (AR). Com base nessas informações, define-se o valor da ATR.

Essa metodologia tem por princípio remunerar a matéria-prima de forma mais justa, de acordo com a qualidade da mesma e incentivar os fornecedores a aplicar a tecnologia disponível de forma a proporcionar a entrega de cana de maior qualidade, contribuindo assim com a eficiência e rendimento produtivo das unidades sucroenergéticas.

Porém, muitos são os desafios a serem vencidos pela indústria. As avaliações de caldo normalmente realizadas contemplam apenas uma parte das necessidades do processo de industrialização, de tal forma que outras poderiam ser inseridas, o que permitiria definir com maior exatidão qual a melhor época de colheita, o melhor destino do caldo, se ele seria mais apto para à produção de açúcar ou etanol e quais operações deveriam ser realizadas para adequar e potencializar o uso do mesmo.

Logicamente que para isso todo o processo de produção precisaria evoluir de forma simultânea. Novos equipamentos e etapas do processo precisariam ser criadas, com vistas especialmente para as necessidades de cada processo industrial de forma específica. Um exemplo disso seria em relação às partes que compõem o colmo de cana-de-açúcar.

O colmo é definido como a parte situada acima do solo, sustentando as folhas e inflorescência (quando presentes), que apresentam formato cilíndrico e são compostos por nós e entrenós.
Estudos realizados pelo Grupo de Pesquisa do Laboratório de Tecnologia do Açúcar e Etanol do departamento de Tecnologia da FCAV/UNESP, campus de Jaboticabal indicam haver diferença na qualidade entre estas duas partes. O entrenó possui maior teor de sacarose, pois aí se concentram as células de reserva em que a sacarose é acumulada. Também, o teor de fibra é menor, estando os feixes vasculares dispostos de forma paralela, diferente do nó, onde é encontrado um emaranhado de feixes responsáveis pela recepção e distribuição dos extratos das folhas (seiva elaborada) e para as folhas (seiva bruta).

Portanto, na região nodal é encontrado um maior teor de fibra, sendo esta parte a responsável pela ocorrência de um maior desgaste das moendas para extração de caldo, além de proporcionar o fenômeno de reabsorção do caldo extraído, o que obriga a realização da embebição com maior intensidade. Esse procedimento proporciona bagaço mais úmido e caldo misto mais diluído, o que permite a inferência de que maior será a dificuldade de se queimar o bagaço nas caldeiras, ao mesmo tempo em que será necessário consumir uma quantidade adicional de vapor para evaporar a água do caldo misto. Além disso, nesta parte do colmo encontra-se maiores teores de acidez, polissacarídeos e diversas frações de nitrogênio.

A acidez do caldo é composta de frações que incluem a acidez fixa e acidez volátil. Os maiores valores de acidez fixa encontrados no nó podem influenciar negativamente na produção de etanol, na medida em que inibe o metabolismo de leveduras, reduzindo assim o rendimento fermentativo. Por ser o principal constituindo da fração ácida das aguardentes a acidez volátil, por sua vez, provoca sabor adstringente na cachaça, diminuindo a qualidade do produto.

Em relação aos maiores valores de polissacarídeos presentes no nódio, eles estão relacionados a fatores negativos no processamento da cana. A dextrana, por exemplo, é um dos principais polissacarídeos que estão presentes na indústria sucroalcooleira. Quando ocorre em elevados teores, pode promover o entupimento de tubulações e contaminações ao longo da linha de processo. Para a produção de açúcar seus efeitos são ainda mais graves. Ela interfere no processo de cristalização do açúcar, alterando a forma e contaminando os cristais. Resultam no surgimento dos chamados “cristais de agulha”. Como consequência tem-se um produto final de menor qualidade, resultando na redução do seu valor de comercializaç&ati