Quem iria acreditar, poucos anos atrás, que o lodo de curtume seria um aliado dos produtores? A tese de doutorado do pesquisador Alexandre Martines, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq), prova que o resíduo pode ser utilizado para corrigir e fertilizar o solo, substituindo outros insumos que são bem mais caros para os produtores. Basta separar materiais pesados, como o cromo, do resto dos resíduos.
|BARRA_AUDIO|
O lodo de curtume sempre foi considerado um vilão para o meio ambiente porque para o coro atingir um alto padrão de qualidade é preciso que ele passe por um intenso tratamento de produtos químicos, que inclui o cromo, garantindo a maciez e durabilidade dos produtos. Mas os resíduos decorrentes deste processo químico eram descartados diretamente em rios ou nos solos. Sabendo que o Brasil produz cerca de 42 milhões de peles de couro por ano, sendo um dos maiores exportadores do mundo, estes resíduos eram uma grave ameaça.
Com pesquisas científicas que colocaram o cromo como um dos inimigos do meio ambiente, as indústrias tiveram que se adequar a certas normas e começaram a separar os metais pesados do resto dos resíduos. O estudo do pesquisador Alexandre Martines, da Esalq/USP, que resultou em sua tese de mestrado e, mais recentemente, de doutorado, mostra como o lodo de curtume pode passar de vilão para aliado.
— Hoje, os resíduos do curtume são separados, é reciclado o que for possível e os resíduos perigosos são destinados a um aterro sanitário ou a um tratamento específico adequado. Já os resíduos que têm potencial de uso em área agrícola, ou seja, que trazem algum benefício para a agricultura, podem ser aplicados no solo, para benefício do produtor.
Existem três tipos de lodo de curtume: o lodo do caleiro, o lodo primário (que sai de uma estação de tratamento) e o lodo secundário (que vem do tratamento biológico). Martines explica que o lodo do caleiro tem pH elevado, em torno de 12,0 , devido ao processo industrial por qual passa, e teor de nitrogênio em torno de 1%. Ele pode ser utilizado como corretivo de solo. Já o lodo primário e o secundário têm pH próximo de 7,0 , com matéria orgânica facilmente degradável, e podem conter ou não cromo (metal pesado).
A tese de doutorado “Avaliação ambiental e agronômica do uso de lodo de curtume no solo” foi defendida em dezembro. Ela mostra como a mistura do lodo de caleiro com lodo primário traz como benefício a correção do pH do solo, que substituiria a calagem ou parte dela. Também há inserção de nitrogênio de mineralização mais lenta, que pode substituir, em parte, o nitrogênio que é aplicado nas culturas.
Apesar dos benefícios, Martines faz alguns alertas. O produtor não deve fazer a aplicação do lodo de curtume sem antes conhecer as características do solo e o tipo de material que está trabalhando. Tem que ser feita uma caracterização do material do solo e identificado o tipo de manejo que será usado em decorrência das culturas que serão cultivadas no local.
— Deve-se tomar cuidado principalmente com o teor de cromo, o excesso de sais e com o teor de nitrogênio, porque se for aplicado muito nitrogênio em um só local também pode se tornar um problema ambiental — adverte.
Essa semana, Alexandre Martines vai se reunir com a CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), que quer revisar a norma de aplicação agrícola que vigora desde 1999. Ela será modelo para uma norma única federal e o estudo de Martines pode servir de base para as novas determinações.
![]() |
"Os resíduos que têm |
