O uso de lodo de esgoto no plantio de espécies florestais pode ser a maneira mais ecologicamente correta de eliminar o lixo que se acumula nas estações de tratamento. Além de não oferecer riscos para o solo, as plantas ou os humanos, a adubação com lodo já apresentou resultados melhores do que a adubação mineral. Para estudar a viabilidade da técnica e comprovar sua segurança, pesquisadores da Unesp de Botucatu realizam experimentos desde 2005. O trabalho final será apresentado no VII Simpósio Interamericano de Biossólidos, que acontece entre os dias 26 e 28, em Campinas (SP).
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O crescimento da população mundial gera um aumento constante da produção de lodo, proveniente dos resíduos domésticos e industriais das cidades. O lodo produzido é tratado e, normalmente, encaminhado para aterros sanitários. Mas os aterros são cada vez mais escassos e, em alguns casos, causam contaminação de lençóis freáticos. Por isso, o uso do lodo na agricultura surge como uma boa opção para o descarte desse lodo. A engenheira florestal Thalita Fernanda Sampaio, doutoranda em Ciência Florestal pela Unesp de Botucatu, explica que a técnica já é utilizada e pode ser beneficente caso se tome os cuidados necessários.
— É preciso estar atento para a questão relativa ao uso na agricultura, em plantios que servem para a alimentação humana. Nesses casos, a legislação não permite o uso do lodo. Mas em casos como plantio de cana-de-açúcar ou florestas, a legislação permite. Para as florestas, nós queremos que o uso seja 100% liberado, sem necessidade de fazer a compostagem, porque o lodo cru é rico em nitrogênio e fósforo. Além de darmos uma disposição correta para o resíduo, vamos estar ajudando o produtor a obter mais lucros — explica.
Para que tenha uma aplicação segura na adubação de florestas, o lodo precisa ser 100% tratado. De acordo com Thalita, o lodo utilizado na pesquisa é proveniente da Estação de Tratamento de Jundiaí e possui uma quantidade de metais pesados quase inexistente, muito inferior ao nível permitido pela legislação. O cuidado de analisar a qualidade do lodo é necessário, pois dependendo da região ou estação de tratamento de onde vem o material pode apresentar metais pesados, nocivos aos lençóis freáticos, e até alguns patógenos.
O trabalho de pesquisa foi realizado em parceria com a empresa Suzano Papel e Celulose e a Universidade de Santiago de Compostela, e recebeu apoio da Fapesp. Em uma área florestal, foram testadas doses variadas de lodo, de 0 a 20 toneladas por hectare, em comparação com um tratamento de adubo mineral convencional (NPK). O local escolhido para o experimento tinha solo arenoso, onde os elementos lixiviam com mais facilidade, o que torna mais visível a presença de metais pesados. Foram adubadas nove espécies amazônicas. Após 6, 12, 18 e 24 meses foram feitas análises do solo de macro e micro nutrientes, além do teor de metais pesados.
Seis meses após a aplicação do lodo, foi detectada uma quantidade de cádmio e mercúrio crescente de acordo com as doses. Mas até a dosagem de 20 toneladas essa quantidade ficou abaixo do nível permitido pela legislação e não contaminou o solo nem as plantas. Aos 12 meses, a quantidade de cádmio diminuiu e o mercúrio sumiu por completo. Aos 18 meses nenhum teor de metal pesado foi identificado. Além de não contaminar o solo, os experimentos revelaram que a adubação com lodo foi mais eficiente que a convencional.
— A pesquisa comprovou que esse lodo para a área florestal é excelente. As espécies cersceram tão bem ou melhores do que o tratamento com adubo mineral, tanto em relação à altura quanto em relação ao diâmetro e nutrição foliar — comemora Thalita.
