Quando se fala em dendê, a maioria das pessoas pensa no óleo usado no acarajé ou para culinária. De fato, hoje em dia essa é a maior demanda de derivados da dendeicultura. No entanto, o cultivo tem uma diversidade de produtos que alimentam a agroindústria e o principal deles é o ácido graxo livre, um co-produto do refinamento do óleo de dendê, que é um sólido usado para fazer sabonetes e usado como gordura vegetal para margarinas e outros produtos alimentícios. Este material é o mais usado na fabricação de produtos com gordura zero trans, muito utilizada atualmente pela indústria alimentícia. Existe também o óleo de palmixe, que tem alto valor na indústria de cosmética e farmacêutica.
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— O Brasil hoje importa cerca de 50% do óleo de palma que utiliza. Somos, no mundo, o país que tem maior potencial de crescimento porque os grandes produtores mundiais, que são a Indonésia e a Malásia, praticamente exauriram as áreas de crescimento e o Brasil pode crescer muito, principalmente no Pará e Bahia. O grande incentivo para o crescimento da dendeicultura no País é o mercado de gorduras zero trans. No ano passado, o Ministro da Saúde convocou a indústria alimentícia para fazer um pacto para a produção de alimentos sem gordura trans. Em breve, a indústria não vai mais estar sob pacto e vai ter uma legislação proibindo a gordura trans e aí vamos ter um grande aumento da demanda da gordura zero trans, que vem do dendê — explica o pesquisador Marcos Enê, da Embrapa Amazônia Oriental.
Além destes produtos, existe também a possibilidade de se produzir biocombustível a partir do óleo bruto ou refinado do dendê, o chamado óleo de palma, que recentemente ganhou um programa específico do governo federal. O programa incentiva a produção de óleo de palma e dá benefícios para os agricultores que plantarem dendê em áreas alteradas da Amazônia, principalmente o Acre. Com todas estas possibilidades, as perspectivas para o crescimento da dendeicultura no Brasil são muito grandes e os especialistas esperam um crescimento de quatro vezes a área atual plantada, durante os próximos anos. Hoje em dia, o óleo de palma não é utilizado como biocombustível porque a área de cultivo ainda é pequena e a demanda pelo óleo de dendê para a indústria alimentícia consome praticamente todo o mercado produtivo.
— A situação do mercado brasileiro é uma situação de demanda reprimida pelo óleo de palma para a indústria de alimentos e de biocombustíveis. Hoje, nós temos uma área em torno de 100 mil hectares de dendezeiros plantados. Nós precisaríamos ter uma área entre 300 a 400 mil hectares para atender somente a demanda de mercado de alimentos. Tradicionalmente, a produção de óleo de palma no mundo vem sendo muito combatida porque na Malásia e na Indonésia se fez o plantio em área de floresta nativa, que foi queimada e colocou algumas espécies em risco de extinção. Estamos falando em produção de óleo de palma somente em áreas alteradas e mesmo estas áreas têm aptidão para a produção do dendê. Inclusive, uma das diretrizes do programa é a proibição de qualquer plantio em área de floresta nativa. Nós vamos fazer um programa de expansão da dendeicultura no Brasil, em especial na Amazônia, com preocupação sustentável, com retorno econômico e respeito social e ao meio ambiente amazônico — destaca Enê.
Os derivados da dendeicultura não se limitam só ao óleo. Assim como o bagaço de cana, a indústria do dendê também aproveita um resíduo para gerar energia. A seiva de prensagem do dendê tem alto valor energético e é responsável por quase toda a energia que se utiliza no processo de industrialização. Outro co-produto energético é o endocarpo, que é a sobra da casca dura da semente. Existem também os cachos vazios, um material lignoceluloso que, geralmente, volta para o campo como cobertura orgânica e contribui para a nutrição das plantas. Enê explica que o produtor vai se beneficiar diretamente com a expansão da agroindustrialização porque a demanda pelo produto será maior e ele poderá ser valorizado.
— Hoje, no Brasil, nem sempre se diferencia o produtor agrícola do produtor agroindustrial. A maioria das empresas aqui do Pará se confunde, tem a produção agrícola e a produção agroindustrial. O que se observa é uma tendência em que as duas figuras vão se separar. Vamos ter o agroindustrial e o produtor agrícola familiar, que será o fornecedor da agroindústria. O melhor posicionamento dos produtos da agroindústria no mercado reflete no produtor agrícola que produz o cacho de dendê, porque ele acaba sendo valorizado e tem um pouco mais de estabilidade — diz o pesquisador.