O Cerrado brasileiro, principalmente a região dos Chapadões, voltou a sofrer muito com os danos causados pelos nematóides de cisto da soja. Até poucos anos atrás, o patógeno era facilmente controlado pelos produtores com o uso de variedades resistentes. No entanto, nos últimos três anos os produtores estão vendo um aumento significativo do parasita que voltou a assolar as lavouras da região. Pesquisadores acreditam que o principal motivo da alta infestação é que os produtores deixaram de plantar milho no verão para plantar o milho safrinha. Segundo Guilherme Asmus, pesquisador da Embrapa Agroepcuária Oeste, até poucos anos atrás, quando a população de nematóides de cisto ainda estava sob controle, boa parte das propriedades plantava milho no verão e praticava uma rotação natural com a soja.
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— O que se percebe hoje é que houve um migração da cultura de milho de verão para o milho safrinha. Deixou-se de fazer a rotação. O milho está entrando agora em sucessão à soja. O efeito do milho safrinha sobre as populações de nematóides não é tão eficiente porque o outono é a época que há uma diminuição normal da incidência dos nematóides de soja. O milho é uma cultura resistente, que não permite a multiplicação do nematóide de cisto, independentemente do híbrido ou da variedade. O nematóide é um parasita obrigatório, ou seja, ele precisa de uma planta viva hospedeira para que possa se multiplicar. Se eu tenho milho, que não é alimento para ele, com o tempo a população vai diminuir porque o nematóide não vai ter o que comer. Ao fazer a rotação, deixando de plantar soja durante um ou dois anos e plantando milho no verão, com o passar do tempo a população no solo vai diminuir por falta de alimento — explica Asmus.
Os pesquisadores estão estudando a causa do aumento da população de nematóides de cisto nas lavouras de soja do Chapadão do Sul há mais de dois anos. Uma outra hipótese para o crescimento da incidência do patógeno tinha sido levantada, mas foi derrubada. Como existem várias raças de nematóides de cisto na região, os especialistas estudaram a hipótese de estar havendo uma mutação, resistência das raças ou uma possibilidade de algumas raças terem desenvolvido a capacidade de se multiplicarem nas variedades de soja que eram consideradas resistentes até então. Porém, eles verificaram que o comportamento das raças se manteve o mesmo. Não houve qualquer tipo de mutação ou processo de resistência nos últimos anos. Descartando esta hipótese, os pesquisadores introduziram a rotação de culturas, com o milho, em áreas infestadas com os nematóides de cisto e verificaram que houve uma queda de 70% da população dos parasitas com o plantio de milho no verão.
— Os estudos que temos feito na região do Chapadão do Sul é de que com um ano de rotação com culturas que não sejam alimento para os nematóides de cisto (como milho, cana e pastagens) há uma redução de 70% da população de nematóides. Se a população de nematóides já estiver muito alta, digamos 800 a mil nematóides por 100 centímetros cúbicos de solo, mesmo diminuindo 70% da população ainda ficará uma população residual alta e exigiria que fossem dois anos sem a cultura da soja. Em média, há uma redução de 70% da população de nematóide de cisto a cada ano de rotação com cultura não hospedeira — diz o pesquisador.
Com a volta da rotação da soja com o milho, espera-se que as produtividades voltem aos altos patamares de alguns anos atrás e os produtores diminuam os prejuízos econômicos. No entanto, antes de tomar qualquer medida, os agricultores devem ficar muito atentos ao tipo de nematóide que está ocorrendo na sua propriedade. Isto, porque o plantio do milho no verão só é uma forma de controle eficiente contra os nematóides de cisto. No caso de outros tipos de nematóide como o das lesões radiculares, o milho é hospedeiro e pode até incentivar o crescimento da infestação. Para tomar a decisão correta, o produtor deve fazer a análise de solo e conhecer exatamente as características do nematóide que está causando danos na lavoura.
— É importante que o produtor fique atento que a rotação é a melhor alternativa especificamente contra os nematóides de cisto. É fundamental que o produtor conheça quais são as espécies de nematóides que ocorrem na sua propriedade. Isso é muito importante para tomar as decisões de controle. É com essa informação que se vai poder traçar uma estratégia de manejo adequada. O produtor corre o risco de estar usando uma estratégia errada, de inclusive estar favorecendo o aumento da população de nematóides, em função de desconhecer a espécie que ocorre na sua propriedade. Por isso, há a necessidade de se fazer amostragens de solo e encaminhar as amostras para laboratórios confiáveis e capacitados para a análise — alerta Asmus.