Monitoramento é fundamental na aplicação de químicos

Produtor precisa estar atento não só à regulagem das máquinas e escolha adequada da técnica como não deve deixar os operadores sozinhos no campo

Juliana Royo
Manejo

A responsabilidade na aplicação de produtos químicos na lavoura é um dos temas centrais nas discussões no campo envolvendo produtores, técnicos e pesquisadores. Muitos afirmam que ainda não é possível ter uma grande produção em larga escala sem usar os químicos contra pragas e doenças, enquanto outros tentam provar a eficiência dos orgânicos e do controle biológico, que vem ganhando cada vez mais espaço. Mas mesmo os que apóiam o uso de químicos já chamam a atenção dos produtores para a necessidade da aplicação correta que tenha o mínimo impacto possível no meio ambiente e reduza os custos de produção.

|BARRA_AUDIO|

Essa discussão também está presente no evento É Hora de Cuidar da Soja 2010, que está percorrendo 16 municípios do Estado de Mato Grosso, entre os dias 16 de novembro e 3 de dezembro. Entre as palestras que fazem parte da programação, o professor Ulisses Antuanissi, da Unesp Botucatu vai falar sobre a responsabilidade de produtos químicos nas lavouras de soja do Estado. Ele diz que muitos produtores já estão se conscientizando, mas ainda não dominam a tecnologia de aplicação e deixam falhas. Segundo ele, é preciso fazer um monitoramento intenso tanto nos equipamentos, com revisões constantes, quanto no trabalho dos operadores das máquinas aplicadoras.

— No sistema de produção, o uso de defensivos é um dos pontos de maior custo na lavoura. Não justifica que justamente esse momento tão importante seja negligenciado. Essa questão dos erros de aplicação frequentes está bastante ligada à questão da calibração das máquinas, a regulagem dos pulverizadores para ajustar a dose dos produtos que vão ser aplicados e o erro na hora de acertar o horário da aplicação com as condições climáticas e com a técnica que é utilizada. O desajuste entre a técnica de aplicação e a condição climática no momento em que a aplicação é feita pode levar a um erro que pode causar deficiência no controle e, com isso, a gente pode ter deriva dos agrotóxicos que podem causar danos econômicos e ambientais — ressalta o professor.

Antuniassi explica que é muito comum que os produtores creditem erros da aplicação a algum produto, mas muitas vezes eles não percebem que estão usando um bico errado, não estão trabalhando com a calibragem correta ou estão fazendo a aplicação em uma época inadequada. Ele diz que os erros mais clássicos são o tamanho de gota errado por causa do bico incorreto do aparelho. É muito importante que sejam feitas revisões periódicas de todo o maquinário utilziado e, principalmente, que os produtores não padronizem as aplicações porque cada parte da lavoura e cada época de aplicação tem uma necessidade diferente e precisa de ferramentas diferenciadas. O mais correto é flexibilizar a tecnologia de aplicação usando bicos e calibragens diferentes para cada área da plantação.

— É preciso escapar o chavão da padronização da aplicação, isso é um erro do ponto de vista da tecnologia de aplicação. Nós precisamos sim flexibilizar as técnicas, ter disponíveis várias calibrações no pulverizador para que o produtor possa usar essas calibrações ao longo da aplicação, de forma a ajustar isso. Uma das etapas importantes é a inspeção periódica de pulverizadores. A gente tem necessidade de investir na qualidade de manutenção e inspeção das máquinas. Especificamente no Mato Grosso, nós temos percebido que nos últimos três anos tivemos uma redução de 50% no índice de máquinas com problemas de calibração. Porém, a gente tem índices altos de 70% a 80% de máquinas com pontas e bicos de pulverização inadequados e isso se mantém. Essas pontas têm um custo baixo, em relação ao custo do processo, e elas é que definem a qualidade da aplicação — destaca.

Mão-de-obra desqualificada

Outro ponto muito importante que é negligenciado por muitos produtores é a qualidade dos operadores que estão conduzindo as máquinas. Muitas vezes eles não têm o domínio completo da técnica, mas são deixados sozinhos fazendo as aplicações no campo, o que gera deficiências. Mais tarde, quando as pragas ou doenças invadem a lavoura, o agricultor não sabe qual foi o erro e acha que a culpa é do produto, quando o problema pode ter sido cometido na hora da aplicação.
— É importante que o agricultor acompanhe o resultado, esteja próximo da aplicação, não deixe o operador da máquina trabalhar sozinho sem assistência de um técnico porque se isso estiver ocorrendo não vai ter ninguém pra ver esse erro. A melhor maneira para evitar problemas é monitorar o trabalho de perto. A maior porta de entrada do erro é ter alguém que não tem total noção do que está sendo feito e esta pessoa estar trabalhando sozinha porque ninguém vai estar ajudando a ele tomar decisões. O operador tem que ter um grau de liberdade de tomar decisões, mas essa liberdade é limitada, inclusive pelo conhecimento técnico. Infelizmente, existe uma grande deficiência no conhecimento da tecnologia de aplicação por parte dos operadores. Precisamos treinar os técnicos para que as aplicações sejam feitas com qualidade e segurança — alerta Antuniassi.