A introdução de tecnologias de países frios na agricultura brasileira, a partir da década de 1960, foi um dos fatores que agravou a degradação dos solos nacionais. Métodos que pregavam o revolvimento e a não cobertura do solo, por exemplo, não eram condizentes com as condições climáticas do Brasil e comprometeram o teor de matéria orgânica dos solos. Mas a situação começou a ser revertida a partir da década de 1970, com a criação de técnicas nacionais personalizadas. De acordo com Ibanor Anghinoni, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, só agora os pesquisadores estão percebendo os erros que existiam no antigo sistema de produção agrícola que vigorava no Brasil.
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- Os parâmetros tradicionais servem, mas não são suficientes para interpretar o que o solo é capaz de oferecer. Não podemos mais associar fertilidade do solo à sua simples capacidade de fornecer os elementos essenciais e nutrientes. Estamos numa situação de quebra de paradigmas. Estamos descobrindo alguns erros e ruídos no sistema antigo, embora ainda não tenhamos uma visão clara de como encarar a situação – explica o pesquisador.
As novas técnicas produtivas nacionais estão, de acordo com Anghinoni, melhorando a capacidade dos solos brasileiros. O próximo passo é avaliar essas tecnologias e criar um novo sistema nacional.
- Com métodos como a rotação de culturas e o não revolvimento do solo estamos equiparando nossa fertilidade à fertilidade do meio extra americano, mas com a vantagem de que aqui temos sol o ano inteiro. É uma situação muito promissora para nós, pois nos permite produzir o ano todo – comemora.
Sistemas de fertilidade
O conceito de fertilidade do solo surgiu muito antes do próprio conceito de solo. No início da atividade agrícola, o homem encarava fertilidade como a capacidade do solo de produzir abundantemente. Em 1700, cientistas chegaram à conclusão que a fertilidade vinha do húmus do solo, ou seja, da matéria orgânica. Surgiu então a teoria humista, que deu lugar, cerca de um século depois, à teoria mineralista. Criada na década de 1840, ela relacionava fertilidade do solo com a capacidade de suprir nutrientes. Essa teoria permitia, através de análises, fazer recomendações de adubação e correção para melhorar a fertilidade.
No Brasil, o conceito mineralista chegou por volta da década de 1960, quando a agricultura passou da fase familiar para a produção comercial. Como os solos do clima tropical eram de baixa fertilidade, os produtores lançaram mão da mecanização e de defensivos, o que permitiu a exploração dos solos ácidos do Sul e do Cerrado brasileiro, antes considerados inférteis.
Com o passar dos anos, entretanto, esses solos começaram a degradar. Por isso a agricultura brasileira sofreu mudanças no sistema de produção agrícola com a introdução de tecnologia de países frios. As técnicas incluíam o revolvimento do solo para aquecer a terra e oferecer um maior período de produção durante o frio. No Brasil, essa tecnologia contribuiu ainda mais para a degradação dos solos.
- Com o excesso de mobilização, a atividade microrgânica tornou-se intensa e começou a decompor toda a matéria orgânica. Isso, associado a chuvas pesadas e à falta de proteção dos solos com cobertura agravou o processo de degradação – explica.
A partir de 1970, o Brasil começou a desenvolver tecnologias próprias de um sistema de produção mais conservacionista. O revolvimento do solo e a rotação de culturas foram algumas das práticas que permitiram o aumento da matéria orgânica no solo e a reversão do quadro de degradação. A teoria mineralista começou a não explicar como as plantas respondiam, demostrando a existência de erros intrínsecos.
- Com a interpretação mineralista, às vezes uma planta parecia bem mesmo em um solo com baixo teor de nutrientes. Agora a gente tem que olhar o solo considerando um sistema e não os indivíduos. Naquele sistema, você corrigia a acidez e obtinha uma resposta da planta. Mas é necessário observar o solo como um todo e encarar a fertilidade como a capacidade produtiva do solo, que é a capacidade não só de suprir nutrientes, mas também de suprir água e oxigênio. É preciso observar a relação entre os indicadores individuais – explica Ibanor Anghinoni.