O compromisso com a sustentabilidade e a necessidade de desenvolver alternativas aos combustíveis fósseis, que são finitos e poluem o meio ambiente, já são um fato na política de vários países, inclusive o Brasil. Aqui, os sinais são positivos graças ao etanol brasileiro produzido a partir da cana-de-açúcar e ao biodiesel do óleo de soja. No entanto, cada vez mais, cria-se a necessidade de descobrir outras culturas que também sirvam para produzir biocombustíveis, como forma de complementar o óleo de soja. Até agora, nenhuma matéria-prima estudada consegue superar os benefícios da soja, mas alguns estudos apontam boas perspectivas futuras em relação a algumas espécies como as palmeiras nativas e o dendê. O pesquisador Nilton Junqueira, da Embrapa Cerrados, é o coordenador do Projeto Fontes Alternativas Potenciais de Matéria-Prima para a Produção de Agroenergia, que está estudando 11 oleaginosas nativas, além do pinhão-manso, com potencial para a produção do biocombustível.
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— Cerca de 80% do biodiesel brasileiro é produzido a partir do óleo de soja. O objetivo do nosso projeto é descobrir uma espécie de oleaginosa que tenha potencial melhor do que a soja, ou seja, que é capaz de produzir uma quantidade maior de óleo, que seja socialmente, economicamente e ambientalmente melhor. Hoje, a soja é viável porque o farelo da soja quase subsidia o óleo. Esta espécie que nós estamos procurando vai ter que ter um coproduto também valorizado. No Brasil, há um grande número de espécies oleaginosas e nós decidimos trabalhar com 12 espécies oleaginosas nativas do Brasil. Das espécies que nós estamos pesquisando, as palmeiras nativas estão se destacando. Outra espécie de destaque é o dendê, mas para ela ser cultivada fora da Amazônia ela tem que ser irrigada e nós estamos trabalhando com dendê irrigado, que mostra um alto potencial de produção — explica Junqueira.
Espécies como o buriti, a babaçu, o baru e a andiroba arbórea já foram descartadas dos estudos porque apresentam produtividade de óleo muito baixa. A aposta do pesquisador para o biodiesel brasileiro do futuro está, principalmente, em três palmeiras nativas: macaúba, tucumã e inajá. A primeira pode ser encontrada em diversas regiões do país que vão desde o Norte ao Sul, já as outras duas espécies são restritas ao Meio-Norte e Norte do Brasil. O teor de óleo dos frutos das palmeiras está entre 10% a 12%, abaixo da soja que tem 18%. Só que a produtividade das palmeiras é bem superior à soja, então, isso é compensado. O óleo destas palmeiras tem qualidade, os coprodutos podem ser utilizados na alimentação animal e até alimentação humana. Uma das dificuldades para o desenvolvimento tecnológico de produção das palmeiras para biodiesel é a falta de investimentos na área da pós-colheita. O óleo das palmeiras se degrada rapidamente, em apenas 2 dias, e precisa de tecnologias pós-colheita que aprimorem a forma de colher e como armazenar o líquido.
Além das palmeiras, outras duas espécies, a cevilha e o pinhão-manso também estão sendo estudadas como potenciais para o biodiesel. A cevilha tem ótimo teor de óleo entre 30% a 60% e pode ser cultivada no chão como abóboras ou em espaldeiras como o maracujá, mas os primeiros resultados da cultura só estarão disponíveis em março do ano que vem. O pinhão-manso, apesar da boa qualidade de óleo e do alto teor entre 30% e 35% na semente, tem problema com doenças, além de ser colhido manualmente, que encarece muito a produção. Os pesquisadores estão trabalhando no sentido de desenvolver, nos próximos 20 anos, uma cultivar de pinhão-manso que possa ser colhida mecanicamente, para que os custos sejam reduzidos.
— Uma vantagem destas 3 palmeiras nativas é que elas oferecem poucos riscos ao ataque de pragas e doenças porque são espécies que ao longo dos anos evoluíram em grandes maciços, mas há um grande risco de uma praga quarentenária. A macaúba tem produtividade igual ou melhor do que o dendê, é rústica, resiste ao fogo e à seca, mas ainda não produzimos variedades para oferecer aos produtores. Nós pensamos na macaúba também como importante na recuperação de matas ciliares e de reservas legais, o que seria uma outra fonte de renda dos produtores. Outra grande vantagem é que nós podemos cultivar estas palmeiras sob pastagem.— destaca.
Junqueira é um dos palestrantes do Simpósio Estadual de Agroenergia, que acontece em Pelotas, no Rio Grande do Sul, de 10 a 12 de agosto. Ele diz que o plantio de espécies oleíferas em pastagens pode ser uma forma de minimizar o impacto negativo da pecuária, melhorar a pastagem e fazer esta integração pecuária-óleo sem haver a necessidade de deslocar a produção de alimento porque o boi vai continuar ocupando o mesmo lugar.
Temos 180 milhões de hectares de pastagens no Brasil e em médias, metade destes hectares tem uma produtividade baixa em torno de 170 quilos de hectare/ano, segundo dados do IBGE. Isso é muito baixo quando você compara com outras culturas como soja, milho e feijão que produzem mais de 2 mil quilos por hectare ao ano. Se nós utilizarmos apenas 20% destes 180 milhões de hectares de pasto que o Brasil tem para o plantio destas palmeiras poderíamos produzir depois de 7 anos, aproximadamente 30 a 35 bilhões de litros de óleo, sem necessidade de deslocar produção de alimento. O consumo de diesel no Brasil é em torno de 45 litros, seria uma forma de nos tornarmos auto-suficientes — calcula o pesquisador.