Um dos mais conceituados pesquisadores em pecuária de leite do Sul do Brasil, Renato Serena Fontaneli, da Embrapa Trigo, ofereceu razões de sobra para convencer o produtor a fazer a integração lavoura - pecuária de leite. “No inverno, temos área de lavoura disponível para fazer pasto”, disse Fontaneli, na última sexta-feira (09), durante sua palestra realizada em Condor. O evento, promovido pela prefeitura, Emater/RS-Ascar e Governo do Estado, reuniu mais de 400 pessoas de nove municípios do Noroeste gaúcho.
De olho nos benefícios econômicos, agronômicos e ecológicos, Fontaneli insistiu para que os produtores gaúchos pensem a respeito dos cinco milhões de hectares que ficam ociosos no inverno. O pesquisador comparou a área cultivada no verão - aproximadamente seis milhões de hectares - com soja, arroz, feijão e sorgo, com a área cultivada no inverno - em torno de um milhão de hectares - com trigo, aveia branca, cevada, triticale e centeio. “A atividade leiteira é árdua, complexa, mas permite renda. Temos de encarar essa atividade como ‘duas colheitas’ por dia”, disse o pesquisador da Embrapa Trigo.
A integração lavoura - pecuária de leite, em um Estado de clima subtropical como o Rio Grande do Sul, abriria uma “janela de oportunidades” para diversificar e aprimorar os sistemas de produção de grãos e de pastagens, conservaria melhor o solo, reduziria a incidência de doenças e plantas daninhas, tornaria mais eficiente o uso das máquinas agrícolas e alargaria a margem de lucro do produtor. “O problema do sistema intensivo é que ele acaba estreitando a margem de lucro”, justificou Fontaneli, embasado na pesquisa realizada pela Embrapa sobre Leite a Pasto em Sistemas de Integração Lavoura-pecuária.
“O pessoal fica com o pé atrás quando eu digo que a vaca que precisamos, a minha avó já conhecia. Genética nós temos, nós precisamos é de alimento”, insistiu Fontaneli.
Partindo do pressuposto de que não se pode dar qualquer coisa para as vacas comer, a pesquisa feita pela Embrapa sugere o plantio e manejo de gramíneas e leguminosas forrageiras e cereais de inverno de duplo-propósito – trigo e aveia.
Entre as espécies anuais de inverno, foram sugeridos trevos, aveia, azevém, com maior taxa de crescimento entre agosto e outubro. Entre as espécies perenes de inverno, poderia se pensar na festuca, trevo branco e cornichão, com crescimento entre setembro e novembro. Na lista das espécies perenes de verão, a Embrapa indicou tifton, quicuio, jesuíta, hermatria, com maior taxa de crescimento entre setembro e outubro. “Dá para fazer muito dinheiro por área, o desafio é consorciar, fazer essa engenharia”, assegurou Fontaneli.
Nos Estados Unidos, quando concluiu o curso de doutorado há mais de dez anos, Fontaneli comparou a produção de leite de vacas em confinamento e tratadas no pasto. “Confinada, a vaca produzia 30 litros. No pasto, a produção baixou cinco litros. Só que o custo do confinamento era quatro dólares vaca/dia. O custo do alimento no sistema a pasto era de dois dólares vaca/dia. Muito bem, perdi cinco litros de leite, mas entrou mais dinheiro no bolso, sobrou 10% a mais”, comparou Fontaneli. “Será que um bom pasto de inverno dá para fazer uma vaquinha produzir 15 litros de leite a pasto? Dá. Com pasto de valor, a vaca come, por dia, 15 kg de matéria seca, logo irá produzir 15 litros de leite. Quanto me custou esse quilo de matéria seca? Dez centavos”, calculou o pesquisador.
O palestrante da Embrapa Trigo tomou o cuidado de não apresentar modelos. “Precisamos conhecer as opções e adaptá-las às condições locais. A cevada, por exemplo, tem alta energia líquida para lactação. No mundo inteiro, mais de 70% da cevada é usada na alimentação animal. No Brasil, é usada para cerveja”, ilustrou Fontaneli.