Embora com algumas propostas diferentes, o tema Agroecologia ganhou reconhecimento em vários meios em que atuam os movimentos sociais, como também no meio acadêmico. “Porém, ainda existem desafios para que a investigação científica e a circulação desse conhecimento no campo da Agronomia e nas instituições de pesquisa avancem na perspectiva de que a Agroecologia represente um novo paradigma de produção agrícola, principalmente no desenho de uma sociedade mais sustentável”, aponta o engenheiro agrônomo da Emater/RS-Ascar, Pedro Urubatan Neto da Costa.
Nesta quarta-feira (27/11), no Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA-Agroecologia), em Porto Alegre, Pedro Urubatan integrou o painel Desafios da Pesquisa em Agroecologia, juntamente com o engenheiro agrônomo francês Stéphane Bellon, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica da França (INRA), a engenheira agrônoma colombiana Clara Ines Nicholls, do Centro de Estudos para a América Latina da Universidade da Califórnia, em Berkeley, na California (EUA), e presidente da Sociedade Científica Latinoamericana de Agroecologia (SOCLA) e o engenheiro agrônomo Waldyr Stumpf Junior, Chefe Geral da Embrapa Clima Temperado. O painel, mediado pelo professor da Unicamp, José Maria Ferraz, trouxe os relatos de cada um dos especialistas sobre suas visões e experiências na pesquisa em Agroecologia.
Pedro Urubatan apresentou o Programa em Rede de Pesquisa-Desenvolvimento em Sistemas de Produção com Atividade Leiteira no Noroeste do Rio Grande do Sul (Rede Leite), um processo interativo entre agricultores, extensionistas e pesquisadores que envolve 46 municípios e 40 mil estabelecimentos rurais, cinco mil produtores de leite e 17 cooperativas, no Noroeste do Rio Grande do Sul. “O objetivo é desenvolver um sistema de gestão de forma a gerar instrumentos e conhecimento coletivo para monitorar, avaliar e projetar sistemas de produção entre os produtores familiares de leite”, explica o extensionista.
O representante da Embrapa, Waldyr Stumpf, resgatou as ações da Instituição apontando o ano de 1975 como a data de surgimento das primeiras interfaces da pesquisa agropecuária com a Agroecologia. “Mesmo que de forma individual, naquela época se incorpora o tema a algumas ações como o controle biológico e o manejo integrado de pragas. Em 2003, começa a interação para a produção orgânica e a construção de políticas públicas e, finalmente, em 2006, se constrói o Marco Referencial da Agroecologia. Entre 2007 e 2009, a Embrapa constrói seu grande projeto de transição agroecológica em nível nacional, envolvendo 30 unidades e 300 pesquisadores, formalizando o tema dentro da Instituição, na formatação da nossa matriz”, relatou Stumpf.
O pesquisador destacou a construção da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO), em agosto de 2012, e a formação da Frente Parlamentar da Agroecologia. “Definitivamente, se coloca o tema na matriz de produção de projetos e soluções. Com o Plano Nacional de Abastecimento Alimentar (Planab), se produz o portfólio do tema, que é o conjunto de conquistas de sistema de produção ecológica.”
Conforme Stumpf, o desafio da Embrapa é reforçar esse portfólio, trabalhar essa interface com editais buscando a convergência entre o Plano Nacional e a matriz de produção, superar a barreira da visão disciplinar e trabalhar numa visão sistêmica, buscar metodologias e modelagens para trabalhar a interação, construir e ampliar políticas públicas e revisões dos marcos legais, entre outros. “Já somos referência no mundo em Agroecologia”, avaliou o pesquisador da Embrapa.
O francês Stéphane Bellon, do INRA, afirmou que a Agroecologia é uma abertura a novos saberes e novos arranjos de pesquisa. “Há uma diversidade de situações e respostas onde o pesquisador, para ser coerente, deve interagir fortemente com a realidade agrícola. É necessário pensar e agir de maneira sistêmica, porque a Agroecologia significa mudar a concepção de agricultura a partir de novas bases, ligando agricultura, alimentação, meio ambiente, ciência e projeto político”, resumiu Bellon.
Para Clara Ines Nicholls, a agricultura é uma atividade técnica e bioecológica que tem interação com os sistemas sócio econômicos vigentes e, portanto, não pode ser concebida sem eles. “Os problemas de desenvolvimento rural são técnicos, são sociais e precisam ser resolvidos, tanto local, regional como globalmente”, afirma a especialista colombiana.
A pesquisadora disse ainda que é através desta compreensão mais profunda da realidade dos sistemas sócio ecológicos de agricultura que “as portas serão abertas para novos métodos de concepção e gestão de opções agroecológicas e políticas, em sintonia com as necessidades dos pequenos agricultores e aos objetivos de uma agricultura verdadeiramente sustentável que promova a soberania alimentar e resistência dos ecossistemas agrícola”.
Entre as grandes tarefas da pesquisa em Agroecologia, Clara destacou a restauração de sistemas e conhecimentos tradicionais, a gestão da biodiversidade e dos pesticidas, a recuperação das bacias hidrográficas e de paisagens degradadas e projetos de agroecossistemas resistentes à mudança climática.