PIB agropecuário recua 8,5%, com perda de produtividade

A economia rural retraiu-se, nos três primeiros meses do ano, 8,5% em comparação ao mesmo período do ano passado, e 7,4% em relação ao último trimestre de 2011

Bruno Cirillo - DCI
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A economia rural retraiu-se, nos três primeiros meses do ano, 8,5% em comparação ao mesmo período do ano passado, e 7,4% em relação ao último trimestre de 2011. O total de riqueza produzida no campo (sem considerar a agroindústria), equivalente a cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, foi afetado pelas quebras de safra e pelas reduções de área das principais culturas agrícolas do verão, além do ritmo lento de abates na pecuária, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

Em valores correntes, o PIB agropecuário ficou em R$ 44,66 bilhões no primeiro trimestre de 2012 (o nacional: R$ 1,03 trilhão), significando aumento da renda dos profissionais do setor - o que pode ter sido impulsionado pela sucessão de recordes no preço da soja -, com alta de 19,4% no comparativo trimestral.

Contudo, o IBGE, por meio de seu mensal Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), estima resultados negativos, nas relações com 2011, para todo o ano. "Ao contrário do ano passado, que vinha sendo muito bom, o setor está se desacelerando", afirma a pesquisadora Amanda Tavares, do instituto.

Nos três meses avaliados, a produção de soja caiu 11,4% ante o que era esperado; a de arroz, 13,8%; e a de fumo, 15,9%. Segundo dados do LSPA, houve retração nas áreas de tabaco (9%) e de rizicultura (11,8%). O território ocupado pelas lavouras da oleaginosa cresceu 3,4%, o que, em contraposição ao menor volume produzido, indica perda de produtividade.

"A soja causou tudo isso", disse ao DCI o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Cesário Ramalho, que perdeu 50% de sua própria produção do grão, em Naviraí (MS), em consequência de adversidades climáticas. "[O resultado trimestral] surpreende. Talvez quem os acompanhe diuturnamente tenha se surpreendido menos, mas 8,5% é uma diferença grande", comentou.

Vale lembrar que a Região Sul do País passou por um período prolongado de estiagem, agravada pelo fenômeno La Niña, durante os meses avaliados pelo IBGE. O Paraná e o Rio Grande do Sul perderam, respectivamente, 25% e 40% das safras na sojicultura, como pontuou Ramalho.
Outro motivo para a queda do PIB: "A extraordinária crise que o mundo está vivendo, e é o mundo para o qual vendemos nossos produtos. As vendas foram afetadas", citou o representante.

Em diante

Embora os números do LSPA indiquem resultados negativos para o resto do ano em comparação a 2011, alguns fatores podem amenizar as quedas. O principal deles vem da cultura da soja, que representa 20% do valor movimentado pela agricultura brasileira: o preço alto (R$ 62,78, sexta-feira, no Porto de Paranaguá), se se mantiver, pode compensar o menor volume produzido.

"[A soja] é uma commodity-chave. O agricultor está aproveitando o preço e garantindo as vendas do ano que vem", comentou Ramalho. Contudo, cerca de dez milhões de toneladas do grão foram perdidas na safra, o que levou para baixo a estimativa inicial de 75 milhões de toneladas.

"Uma boa notícia é que devemos ter uma baita colheita de milho", acrescentou o presidente da SRB, referindo-se à expansão da segunda safra do grão (a chamada "safrinha"). Nesse ponto, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) prevê uma colheita recorde, a partir de junho, de 30,1 milhões de toneladas - alta de 40,5%.

Apesar disso, a entidade, em nota, corroborou a tese dos pesquisadores do IBGE de que o setor agropecuário não pode esperar, em 2012, um desempenho similar ao de 2011. "As perdas na safra só vão ser recuperadas em 2013", declarou a entidade.

Para a economista Amaryllis Romano, da consultoria Tendências, a queda do setor agropecuário já era esperada, e nem a desvalorização do real ante o dólar poderá reverter esse cenário. "Não há surpresa. A safra de grãos de verão caiu 8% e os abates de animais não se recuperaram", disse ela à Agência Estado. "Agora, só podemos pensar na safra de 2012/13. E com otimismo moderado", completou.

O engenheiro agrônomo José Garcia Gasques, que coordena o Planejamento Estratégico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, disse à mesma agência de notícias que a queda do PIB agropecuário pode se acentuar no próximo trimestre. Doutor em Economia, ele atribuiu a previsão ao efeito da seca no nordeste, que deverá ser sentido nos próximos meses, principalmente nas culturas de milho e feijão, as mais afetadas na região.