Planejamento certo para a safra de inverno

Análise de solo e adubação equilibrada em prol da sanidade da lavoura, da economia para o bolso do produtor e da redução de perdas durante estiagens

Da Redação
Manejo

No momento de planejar a safra de inverno, muitos produtores acham que o pousio como forma de fugir da estiagem é a melhor escolha, o que não é verdade. Além de ajudar na proliferação de pragas e doenças, ele ainda pode prejudicar a reciclagem de nutrientes. No entanto, é a escolha certa de variedades, aliada à análise do solo e boa adubação que garantem a sanidade da lavoura e a economia para o bolso do produtor.

— Na verdade, o pousio não é recomendado porque as plantas espontâneas que crescem nessa época podem servir de abrigo e alimento para a proliferação de doenças e pragas que podem atacar a cultura agrícola subsequente. No entanto, a preocupação que se deve ter em mente é que no pousio há pouca produção de massa seca para cobrir o solo e reciclar nutrientes. Com pouca palhada o solo fica sujeito à erosão ocasionada pelo impacto das gotas de chuva e pelo escorrimento superficial da água no terreno no período pós-seca, o que certamente produzirá perdas de solo e nutrientes que poderiam ser aproveitados pela cultura de inverno — afirma Fabiano Daniel De Bona, pesquisador da Embrapa Trigo e doutor em nutrição de plantas e fertilidade do solo.

Segundo ele, nutrientes caros e altamente exigidos pelas culturas como o nitrogênio são muito móveis no solo, ou seja, a única maneira de manter esse elemento na lavoura é na estrutura da planta, seja comercial ou de cobertura. Assim, com a decomposição dos restos culturais durante o crescimento da cultura de inverno, o nitrogênio é liberado pela palhada e aproveitado por essas plantas, o que gera economia de aplicação de fertilizantes.

— Estados como o Rio Grande do Sul inclusive utilizam para recomendação de adubação nitrogenada o parâmetro cultura anterior como base para calcular o quanto de nitrogênio na forma de ureia ou outros adubos é necessário aplicar. Em resumo, o pousio deixa o solo exposto à erosão, o que causa grandes prejuízos, seja por perda de solo ou de nutrientes importantes para o crescimento das plantas — explica.

Para De Bona, o agricultor deve escolher sementes com sanidade e vigor (certificadas), realizar adubação conforme recomendação técnica seguindo fielmente as análises de solo e aplicar fungicidas e inseticidas quando necessário. Já no caso do trigo, ele diz ser importante saber qual cultivares irá utilizar porque a compra desse cereal começa a ser realizada levando em consideração a qualidade do grão (força de glúten). Nesse quesito algumas cultivares têm predisposição genética a produzirem grãos de mais alta qualidade.

— No que refere à adubação, vale alertar ao produtor que muitos segmentos do ramo de fertilizantes ou produtores de sementes recomendam aumentar em demasia o uso de fertilizantes nitrogenados no trigo alegando que isso aumentará a qualidade do grão. Porém, ressalta-se que não existem pesquisas científicas reconhecidas que realmente comprovam que essa prática seja eficiente para todas as cultivares do cereal — explica.

Ainda de acordo com o pesquisador, existem pelo menos três grandes motivos que justificam a realização de análise de solo e recomendação de adubação assistida por técnico habilitado nesse período pós-seca e pré-instalação das culturas de inverno. Em primeiro lugar, grande parte das lavouras sob plantio direto já possuem nutrientes em excesso na camada de 0-10 cm (especialmente em áreas manejadas com agricultura de precisão), pelo uso indiscriminado de fertilizantes sem atentar para análise de solo e para as demandas nutricionais das plantas. Além disso, a produtividade dessa safra foi baixa, o que acarretou baixa exportação de nutrientes pelos grãos. Em terceiro lugar, praticamente não houve perda de nutrientes móveis, como potássio e nitrogênio, por lixiviação ou erosão do solo devido a pouca água disponível (seca).

— Assim, por meio da análise de solo o agricultor terá um diagnóstico dos nutrientes disponíveis no solo e saberá o quanto realmente ele precisará aplicar de NPK de modo econômico e eficiente para que tenha uma adequada produção da cultura de inverno, sem gastos desnecessários.  Além disso, é extremamente importante que os agricultores parem de utilizar recomendações de adubação generalistas que muitas empresas e cooperativas adotam somente olhando o tipo de cultura a ser semeada — completa.

Segundo ele, esse tipo de prática geralmente adiciona nutrientes ao solo que por vezes já existem em quantidades adequadas às plantas no mesmo, desequilibra a relação de teores de nutrientes no solo, o que pode inclusive prejudicar o aproveitamento dos mesmos pela planta, e se traduz em gasto com fertilizantes sem garantia de retorno ao produtor em forma de aumento de produtividade.

— Vale lembrar ainda que aplicar nutrientes em excesso e sem obedecer à análise de solo pode se transformar num problema ambiental porque nutrientes como fósforo e nitrogênio são potenciais contaminantes do lençol freático e mananciais de água — orienta.

Já quando o assunto é o manejo, especificamente para a região Sul, ele indica as gramíneas que produzem grande quantidade de palhada, possuem bom sistema radicular e que sejam produtivas. De acordo com ele, plantas que atendem esse requisito são o trigo, centeio, cevada, triticale e aveia preta ou branca. Já as rotações recomendadas e economicamente viáveis incluem o uso de soja e milho no verão, em alternância de um ano para outro, e gramíneas como trigo, centeio, cevada, triticale e aveia preta ou branca no inverno, também tentando alternar e não repetir a mesma espécie em dois invernos consecutivos. A canola é uma nova opção de cultura de inverno que se mostra importante para inclusão na rotação.

— Não existe uma rotação de culturas que possa ser indicada como a melhor, tudo depende da região e capacidade operacional do produtor. O importante mesmo é a diversificação de culturas de forma que se evite o monocultivo (soja/soja ou milho/milho) ou sucessão (trigo/soja, trigo/milho), os quais empobrecem a biodiversidade e capacidade produtiva do solo — explica.

Para De Bona, essas medidas de manejo proporcionam uma lavoura de verão menos infestada com plantas daninhas, palhada cobrindo o solo que evita erosão até o completo fechamento do dossel de plantas das culturas de verão, economia de fertilizantes ao se considerar o retorno de nutrientes pela decomposição da palhada de inverno, maior retenção de umidade no solo pela cobertura dos restos culturais do inverno, o que minimiza os riscos de perda de produção por estiagens curtas, e menor risco de compactação do solo.