Observando os acontecimentos da safra de 2008, constatou-se que os problemas de doenças na soja deixaram de ser pontuais, como ocorria nos anos anteriores. Antes, eram realizadas aplicações de fungicidas em momentos pré-definidos, a exemplo das aplicações em R4/R5.1 (saiba mais sobre a fenologia da soja) que alvejavam as doenças de final de ciclo, e, após o aparecimento da ferrugem asiática, as aplicações em R1 e R5.1. Esse quadro mudou.
Devido à gama de doenças que se tornaram importantes no cultivo da soja, a tomada de decisão do controle passou a ser bem mais complexa, sendo embasada por uma série de fatores e condições. O agricultor deve atentar para as épocas da semeadura, variedades, condições climáticas, dinâmica das doenças em cada ano, bem como as características de cada uma delas, o momento das aplicações e a eficácia dos fungicidas disponíveis no mercado.
Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), 59,84 milhões de toneladas de soja foram produzidas naquela safra, tendo o Mato Grosso do Sul sido responsável por cerca de 4,6 milhões de toneladas. Os 1,7 milhões de hectares cultivados no estado apresentaram produtividade média próxima das 44 sacas por hectare, abaixo das expectativas dos produtores, sobretudo, no centro-sul, onde os rendimentos foram ainda menores em alguns casos.
A influência das variações climáticas nas colheitas
Uma série de fatores foi determinante para que a safra de 2007/2008 de soja no Mato Grosso do Sul produzisse 2,6 sacas a menos que a média nacional, e o principal deles foi o fenômeno La Niña. A precipitação diária e as variações de temperaturas máxima e média, nos meses que compreendem diferentes estágios da fase reprodutiva, explicam a construção deste cenário na região.
Nas cidades de Dourados e Maracaju, os maiores produtores da região centro-sul do estado, houve uma sucessão de dias chuvosos entre 19 e 31 de janeiro de 2008, com precipitações mais acentuadas e garoas. Nestes dias, houve a predominância de tempo nublado associado à alta umidade do ar e com temperaturas mais amenas, abaixo dos 30ºC. Tal condição foi preponderante para o desencadeamento de epidemias de mancha-alvo, antractose e de um problema ainda não esclarecido, a necrose da base de pecíolo (NBP). A variedade CD 219 RR também foi acometida pela doença. O fato de a população de plantas nas áreas de cultivo estar bem acima da recomendada foi outro fator decisivo para o surgimento dessas epidemias.
No início de fevereiro do mesmo ano, as chuvas cessaram e o maior problema incidiu na temperatura, que atingiu níveis bem mais elevados. A oscilação implicou no encurtamento do ciclo de algumas variedades, principalmente as de ciclo precoce semeadas em outubro, que já se encontravam em estágio final de enchimento de grãos (R5.5 ou R6), causando impacto negativo na produtividade. A partir do dia 9 de fevereiro, as chuvas se normalizaram em Dourados, sem precipitações acima dos 10 milímetros. Já em Maracaju, ocorreram chuvas nos dias 10, 11 e 12, interrompidas no período de 13 a 21 do mesmo mês, novamente coincidindo com a fase final de enchimento de grãos de variedades de ciclo precoce e semi-precoce.
Por fim, após 22 de fevereiro, as chuvas voltaram a cair com maior intensidade, vários dias consecutivos, até o final do mês. Ocorreram então as maiores epidemias de ferrugem, em virtude da associação de grande quantidade inóculo produzido ao longo da safra, clima e hospedeiros suscetíveis. Em algumas lavouras de soja mais tardias, o problema se agravou devido ao retardamento da realização da segunda aplicação de fungicida e, sobretudo, da terceira, já que as chuvas impediram a entrada dos pulverizadores nas lavouras.
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