
A qualidade da cobertura do solo é fundamental para o pleno sucesso do sistema plantio direto. Apesar de ser óbvio, mas parece que os agricultores não se esmeram na obtenção de uma cobertura de qualidade. O material orgânico cobrindo a superfície do solo desempenha um papel vital na proteção e construção do perfil cultural. A cobertura protege o solo pelo menos contra cinco fatores degradantes: o impacto da gota de chuva, a radiação solar, a evaporação, a infestação de plantas invasoras e a mineralização intensa.
No cerrado brasileiro e principalmente em áreas arenosas somente a cobertura de qualidade possibilita otimizar a tecnologia e obter altas produtividades. Dois pontos estratégicos são importantes, o solo tem que ficar coberto sempre, com cobertura morta ou viva; e a planta de cobertura deve respeitar o esquema de rotação de culturas. A escolha do cultivar é o primeiro passo para cobrir com qualidade.
Para culturas econômicas como é o caso do milho, da soja ou do algodão a robustez e adaptação às condições de solo e clima aliados a uma boa implantação são decisivos para uma cobertura verde rápida com produção de palha e raízes em quantidades satisfatórias. Com relação aos cultivares é importante ter opções entre gramíneas e leguminosas para os períodos de verão, outono e inverno.
O desenvolvimento vegetativo inicial bem vigoroso, a alta capacidade de cobertura e competitividade com as invasoras, são os indicadores de qualidade mais populares para escolha de materiais. O vigor do sistema radicular e a rapidez de acúmulo de matéria seca são indicadores mais técnicos, porém fundamentais para compor um esquema ideal de rotação de culturas.
Quando a planta possui vigor as raízes ocupam rapidamente o solo e num crescimento vertical e horizontal vão rearranjando o perfil criando uma verdadeira rede de tubos biológicos constituindo a porosidade natural que é a grande responsável pela velocidade de infiltração da água. Quando a planta acumula matéria seca desde sua fase vegetativa (crescimento, formação de galhos e brotos) permite maior versatilidade de manejo podendo ser trabalhada num curto período pós-germinação, alem disso o acúmulo de matéria seca vai propiciar mais lignina e celulose, retardando o processo de decomposição tanto da parte aérea que cobre o solo como do sistema radicular. Por esses motivos a precocidade do cultivar pode ser considerada um indicador de qualidade quando se tem necessidade de utilizar de uma planta de cobertura em um curto espaço de tempo.
O florescimento é o principal indicador de qualidade para o manejo de plantas de cobertura, pois pode ser considerado um “ponto estratégico” para a tomada de decisão sobre a hora a forma e em que as plantas vão ser trabalhadas.
Quando as plantas são manejadas antes ou no início do florescimento elas estão tenras e com a relação C/N (carbono/nitrogênio) baixa e desta forma a sua decomposição é acelerada e o material orgânico é mineralizado rapidamente, em virtude disto o manejo mecânico mais indicado é o acamamento, que quando realizado com o rolo-faca resulta num manejo da fitomassa com qualidade, pois fragmenta menos retardando o processo de decomposição.
Após o florescimento as plantas de cobertura praticamente já contém o máximo de matéria seca possível e podem ser ainda manejadas em dois estágios fisiológicos, na fase de “grão leitoso” ou verdolengo e na fase pós “maturação fisiológica” da panícula ou da vagem.
No primeiro estágio a planta com “grão leitoso” apresenta boa quantidade de celulose, mas está muito sensível e morre definitivamente sem risco de rebrote com a fragmentação mecânica ou com a aplicação correta de um dessecante. No segundo estágio a planta pós “maturação fisiológica” está madura e com o teor de matéria seca na sua capacidade máxima alem de estar lignificada e ainda com altos teores de celulose, podemos dizer que está com ótimas condições de proteger o solo e contribuir para o aumento da velocidade de infiltração de águas, nestas condições qualquer forma de manejo pode ser utilizado com qualidade, mas é preciso escolher materiais que não rebrotem ou infestem a área com sementes que no futuro podem se tornar uma invasora incontrolável.
É importante lembrar que a qualidade na distribuição de palha pela colhedora é um fator que interfere em todo o processo de instalação e manejo da cultura de sucessão. Se o agricultor levar a sério a qualidade no manejo da cobertura o sucesso do sistema plantio direto está garantido.