Conforme já mencionamos em artigos anteriores dessa coluna, apesar da importância do solo como base de todos os sistemas de produção de alimentos, o conceito de qualidade do solo é recente (surgiu na década de 1990) e envolve não só a questão da produtividade biológica (grãos, carne e leite), mas também todos os serviços ambientais que o solo presta ao planeta Terra e que resultam na melhoria da qualidade da água e do ar e na promoção da saúde dos seres vivos, incluídos aí plantas e animais.
Não se pode falar em agricultura sustentável sem falar em qualidade do solo, principalmente no atual cenário mundial em que a população e conseqüentemente a demanda por alimentos é crescente e vários estudos têm demonstrado que em torno de 40% dos solos do mundo estão degradados. Entretanto, a quantificação da qualidade de um solo não é uma tarefa fácil. A multiplicidade de fatores químicos, físicos e biológicos que resultam no “funcionamento” do solo e suas variações, em função do tempo e espaço, estão entre os fatores que dificultam a capacidade de acessar a sua qualidade.
Tendo em vista toda essa complexidade, a elaboração de Índices de Qualidade de Solo (IQS), englobando todos esses fatores constitui-se numa forma de agregar e simplificar informações de natureza diversa.
Para a elaboração desses índices o primeiro passo é a identificação de parâmetros-chave, que possam servir como indicadores do funcionamento do solo, pois nenhum indicador individualmente irá descrever e quantificar todos os aspectos da qualidade do solo.
O segundo passo está relacionado a forma de calcular, matematicamente esses índices. Dentre as estratégias mais utilizadas para esse fim destacamos duas: a primeira é baseada em modelos que utilizam atributos químicos, físicos e biológicos que avaliam funções específicas do solo, tais como sua capacidade de: 1) receber, armazenar e suprir água; (2) armazenar, suprir e ciclar nutrientes; (3) promover o crescimento das raízes; (4) promover a atividade biológica. A cada função é associado um peso numérico, expresso em porcentagem, que determina o seu peso dentro do modelo. Também são definidos pesos para cada indicador associado a cada função do solo. Utilizando essa estratégia, a Universidade Federal de Viçosa desenvolveu, em 2004, o software SIMOQS “Sistema de Monitoramento da Qualidade do Solo”, que permite a construção e condução de testes de modelos para cálculos de índices de qualidade de solos de forma rápida, com uma interface amigável e que podem ser aplicados a diferentes regiões e culturas. Esse software atualmente está em fase de aperfeiçoamento. A segunda forma de elaboração de índices de qualidade de solo é baseada na construção de modelos matemáticos orientados por análises de componentes principais ou de regressão múltipla.
Longe da pretensão de representar um consenso, as várias abordagens utilizadas para o monitoramento da qualidade do solo e para os cálculos de IQS constituem, antes de tudo, subsídios para discussões técnicas e até mesmo filosóficas sobre: i) quais os atributos (químicos, físicos e biológicos) devem fazer parte de um conjunto mínimo de dados para avaliar a qualidade do solo; e de ii) como ajustar modelos de referência para cada sistema de manejo/cultura avaliado, levando em consideração os aspectos locais, principalmente aqueles relacionados às condições edafoclimáticas;
A compatibilização dessas questões, a inclusão do componente econômico relacionado à produtividade das culturas nos cálculos de IQS e a própria forma de utilização desses índices são aspectos importantes que também precisam ser considerados.
Em um mundo globalizado onde a preocupação com a valoração dos serviços ambientais e as barreiras ao comércio internacional se tornam cada vez mais evidentes, é possível que, uma vez bem definidos e normatizados, o uso de índices de qualidade de solo permita a agregação de valor aos produtos agrícolas oriundos de propriedades rurais/países que sejam capazes de comprovar que as práticas de manejo adotadas em suas lavouras permitem a manutenção/melhoria da qualidade do solo, garantindo a preservação desse recurso para as gerações futuras. Seguindo esse raciocínio, o uso desses índices poderia também servir como referencial para a valoração das terras, redução de impostos e de taxas de juros. Várias agências reguladoras internacionais têm discutido como avaliar a qualidade do solo. A título de exemplo, o comitê técnico internacional ISO 190, “Qualidade do Solo”, propôs uma lista de 35 parâmetros (químicos, físicos e biológicos) como indicadores de qualidade de solo, enquanto que na OECD (Organization for Economic Cooperation and Development) estão sendo definidos diversos indicadores agroambientais (aproximadamente 250, dos quais 58 relacionados à qualidade do solo).
Atualmente, a Nova Zelândia já possui um sistema governamental on-line (http://sindi.landcare.cri.nz) para avaliação da qualidade do solo, denominado SINDI (The New Zealand Soil Indicators), que utiliza apenas 7 parâmetros. Os dados obtidos em cada propriedade rural podem ser comparados, simultaneamente, a um banco de dados nacional oriundo de 500 solos ou ao melhor conhecimento disponível para cada indicador (interpretação do especialista).
Na EMBRAPA, um dos objetivos do projeto “Biondicadores de qualidade de solo” é determinar, com base em atributos microbiológicos, químicos e físicos, índices para avaliação/monitoramento da qualidade de solos brasileiros, que possam auxiliar nas avaliações de sustentabilidade dos nossos diferentes agroecossistemas. O tema é complexo, mas nossa idéia é proporcionar soluções simples que possam ser adotadas facilmente pelos agricultores.
Quantificar a qualidade do solo: é possível?
Multiplicidade de fatores químicos, físicos e biológicos resultam no “funcionamento” do solo e suas variações entre os fatores que dificultam a capacidade de acessar a sua qualidade
Iêda de Carvalho Mendes, Fábio Bueno dos Reis Junior, Guilherme Chaer
Agricultura Sustentável