A valoração de bens e serviços ambientais tem sido tema de intensas discussões em diversos fóruns e encontros no setor agro. Isso não foi diferente no Sustentável 2011, evento que aconteceu entre os dias 27 e 29 de setembro, no Píer Mauá, Rio de Janeiro. Entre os diversos temas ligados à sustentabilidade, discutiu-se sobre a valoração de serviços tendo em vista a conservação ambiental. Entre os aspectos abordados no evento, estão as mudanças climáticas que ocorrerão nas próximas décadas, prometendo afetar profundamente a agricultura mundial. Já entre as medidas de incentivo à conservação, estão a capacitação, um melhor trabalho de extensão rural e aprimoramento das linhas de crédito, além de uma revisão equilibrada do Código Florestal.
Segundo Bráulio Dias, secretário de biodiversidade e florestas do Ministério do Meio Ambiente, o cenário de 2050 é de uma demanda crescente por produtos agropecuários no mundo inteiro e dentro do Brasil. Portanto, se espera que a produção agropecuária brasileira cresça bastante. De acordo com ele, há expectativas de dobrar a produção ou mais.
Por outro lado, o secretário afirma que há cenários de mudanças climáticas, mostrando que essas mudanças vão provocar um impacto muito grande sobre a agricultura brasileira, mudando completamente o zoneamento da produção no país. Ele conta que a Embrapa, junto com a Unicamp, tem coordenado uma rede de pesquisas que concluem que isso afetará quase todo o setor.
— Uma das conclusões é que, daqui a algumas décadas, não será mais possível plantar café no Brasil. Será preciso importar café argentino. Hoje, não é possível plantar café na Argentina, mas, daqui a algumas décadas, o clima estará bom para eles e ruim para o Brasil. São cenários muito preocupantes que vão mexer bastante com o setor agropecuário — explica Dias.
Para ele, a adaptação da agricultura brasileira ao cenário de mudanças climáticas precisará de recursos genéticos. Ele diz que, se destruirmos nossa biodiversidade, não teremos a variabilidade genética para desenvolver novas variedades adaptadas aos cenários de mudanças climáticas e aos novos solos onde essas plantações deverão ser feitas.
O secretário fala ainda sobre a valoração de bens e serviços ambientais, a qual afirma ser um grande desafio. Como exemplo, ele cita a certificação ambiental. No entanto, para ele, os avanços têm sido relativamente pequenos porque essa medida aumenta o custo dos produtos e o consumidor brasileiro médio ainda não está disposto a pagar um preço diferenciado por esses produtos.
— Além disso, quando se fala em linhas de crédito, existem linhas de créditos disponíveis para produções mis sustentáveis, mas há muito desconhecimento da parte dos usuários e dos gerentes de bancos. Os dois extremos não sabem lidar com projetos inovadores nessa área. Os bancos não sabem fazer avaliações de risco desses projetos inovadores com modos de produção mais sustentáveis e os tomadores não sabem como fazer projetos que podem ser aprovados. Por isso, existem linhas de crédito disponíveis que não são utilizadas. Então, é preciso um trabalho grande de capacitação e orientação — afirma.
Para ele, existe um passivo ambiental grande no setor rural brasileiro, principalmente em relação ao Código Florestal, as áreas de preservação permanente e reservas legais. Dias conta que o assunto é objeto de intensa discussão no Congresso Nacional, de onde ele espera que saia um bom e equilibrado Código revisado, que consiga manter as exigências ambientais e ao mesmo tempo, sensível às necessidades de solução para esse passivo ambiental que foi criado.
— Além de resolver o aspecto legal do Código, precisamos gerar mais capacitação, fazer um trabalho melhor de extensão rural e melhorar as linhas de crédito. Como exemplo, seria bom que o Brasil começasse a adotar critérios de sustentabilidade no crédito agrícola. Hoje, não existe nenhuma exigência do governo ao dar crédito para a agricultura — diz.
Para mais informações, basta entrar em contato com a assessoria de imprensa do evento através do número (21) 3723-8097.

Reportagem exclusiva originalmente publicada em 30/09/2011