O Rio de Janeiro sediou a 3ª Conferência Internacional sobre Biocarvão, principal evento mundial sobre o tema, entre os dias 12 e 15 de setembro. A jornalista Juliana Royo, do Portal Dia de Campo, conversou com alguns dos especialistas mais importantes do mundo sobre ciência do solo, que fazem um balanço do evento e falam sobre os desafios e caminhos da pesquisa sobre o biocarvão. A seguir a entrevista com a pesquisadora canadense, doutora em ciência no solo Julie Major, diretora da extensão agronômica do IBI (Iniciativa Internacional sobre Biocarbono).
Que caminhos esta terceira conferência está aponta?
Julie Major - O Biocarvão é uma tecnologia bastante disciplinar, desperta interesses para produtores agrícolas, tanto pequenos quanto grandes, assim como alguns setores da comunidade científica. É importante saber que esta é uma indústria em construção e é preciso unir esforços porque ainda há muitas necessidades de divulgação de informação e educação da população e da classe política. Nós trabalhamos muito para beneficiar os produtores agrícolas, com o objetivo de melhorar a fertilidade do solo.
O biocarvão tem o poder de aumentar a produtividade agrícola, indiretamente?
Major - O biocarvão pode sim melhorar a fertilidade do solo, mas precisamos ainda de muitas pesquisas para definir e recomendar o uso. Nem todo biocarvão é bom e é isso que está sendo estudado prioritariamente. Existe muita diferença entre os tipos de solo e também entre as variedades de carvão. Precisamos descobrir que tipo de biocarvão funciona melhor para cada tipo de solo.
Inúmeras biomassas podem ser carbonizadas e servir de fontes para o biocarvão. As pesquisas internacionais já indicaram se há um grupo específico de biomassas que tenha melhor efeito quando aplicado ao solo?
Major - São realmente muitas. Podemos dividir as fontes de biocarvão em dois grandes grupos: o de resíduos animais e o de fontes agrícolas como madeira e sobra de cultura. Temos que estudar profundamente estes grupos para saber exatamente seus efeitos nos diferentes tipos de solo. Um tipo de biocarvão pode servir melhor para um solo ácido e não servir para outros solos. Mas a forma de produzir este biocarvão também é muito importante. Temos que explorar diferentes tecnologias com diferentes formas de realizar a pirólise.
É possível dizer em quanto tempo o biocarvão será comercializado em massa?
Major - É muito difícil ainda falar em tempo. É uma questão como a do ovo e da galinha. Não tem ninguém produzindo porque não tem demanda ou não tem demanda porque não tem ninguém produzindo? É uma questão complicada. O que temos que fazer é trabalhar em conjunto. A pesquisa precisa se aprofundar mais e o produtor deve experimentar, trocar informações com os vizinhos, formar grupos para usar o biocarvão e procurar ajuda para achar tecnologias adequadas para sua região específica.
Do ponto de vista ambiental, o biocarvão é uma esperança positiva porque parece ter uma ótima capacidade de sequestrar e reter o carbono no solo durante muitos anos. Já há como saber durante quanto tempo exatamente esse carbono fica retido e qual é a capacidade do solo de armazenagem?
Major - A capacidade máxima a gente não sabe ainda, mas certamente é muito grande. Trabalhei com isso em latossolos na Colômbia e durante os estudos calculamos que o biocarvão aplicado lá teria a capacidade de ficar 600 anos armazenado no solo, naquelas condições climáticas que são parecidas com algumas partes do Brasil. Existem pesquisas indicando que sob um clima mais frio, como o Sul do Brasil, é possível estocar o carbono por mais de mil anos, e sob um clima mais quente esse tempo é bem menor. Mas, para mim, não é uma questão primordial agora saber esse tempo. Basta saber que esse período é bem maior do que o da matéria orgânica simples, que se decompõe em pouco tempo.
O que a senhora espera da próxima conferência internacional sobre biocarvão, que vai acontecer daqui a dois anos?
Major - Gostaria muito de ver mais experimentos e mais provas em campo numa escala da vida real, uma escala grande. Os estudos científicos são analisados em uma escala pequena, por necessidade e até pela falta de material disponível atualmente.