Transgenia de espécies florestais – estado atual da pesquisa

A técnica pode ser vista como uma importante aliada aos programas de melhoramento das espécies florestais

Juliana Degenhardt-Goldbach
Genética

A transformação genética de plantas, vem sendo praticada há mais de duas décadas, para várias culturas de importância comercial. Dentre os exemplos mais conhecidos, estão a soja transgênica resistente a herbicida e o milho transgênico, resistente a insetos, que vêm sendo plantados comercialmente em áreas expressivas. Transformação genética é a transferência de um ou vários genes de um organismo para outro, através de técnicas de biologia molecular, e as plantas resultantes são conhecidas como transgênicas.

Com relação às espécies florestais, apesar das inúmeras pesquisas realizadas nesse campo, com várias espécies, com exceção de aproximadamente 1 milhão de plantas de álamo plantadas na China, não existem plantios comerciais de plantas transgênicas.

Vários experimentos em laboratório e a campo estão sendo conduzidos em vários países. No entanto, estudos com plantas perenes apresentam algumas restrições. A transformação de espécies vegetais, depende do cultivo in vitro em laboratório das plantas para que os experimentos possam ser conduzidos e as plantas transgênicas regeneradas. No entanto, várias espécies florestais mostram-se recalcitrantes a esse tipo de cultivo. Em muitos experimentos, foram obtidas células ou tecidos vegetais transgênicos, sem que estes pudessem ser regenerados em plantas inteiras.

No entanto, a técnica pode ser vista como uma importante aliada aos programas de melhoramento das espécies florestais. Devido ao lento crescimento, os longos períodos de vida, a incompatibilidade sexual em cruzamentos e a alta heterozigosidade de várias destas espécies, além de ciclos estacionais de crescimento e dormência, mudanças de estádios de desenvolvimento ao longo dos anos, formação da madeira e as adaptações de longa duração às variações ambientais, o melhoramento clássico leva décadas para que árvores com características superiores sejam selecionadas e possam ser usadas para clonagem em plantios comerciais.

A transformação genética apresenta-se como uma alternativa para diminuir o tempo para obtenção de clones melhorados. Com o advento dos transgênicos, é possível, ao final do processo, a obtenção do mesmo clone com apenas uma ou poucas características melhoradas, sem a necessidade de cruzamentos e retrocruzamentos. Aliado a isso, vários projetos visando o isolamento de genes de interesse, que confiram características superiores às plantas transgênicas, vêm sendo realizados em paralelo. Um exemplo a ser citado é o projeto Genolyptus, cujo objetivo foi avaliar o genoma do Eucalyptus e isolar genes de interesse econômico.

As espécies florestais que mais vem sendo pesquisadas no campo da transformação genética são o Populus (álamo) e o Eucalyptus e as principais características manipuladas geneticamente são (i) redução ou alteração do ciclo reprodutivo; (ii) modificação da arquitetura da planta; (iii) manipulação dos teores de lignina e celulose; (iv) resistência a doenças e pragas; e (v) tolerância a herbicidas e estresses abióticos.

Além de álamo e eucalipto, experimentos com espécies arbóreas transgênicas envolvem várias outras espécies, dentre elas espécies de Acacia e Hevea (seringueira), e as coníferas Pinus, Picea e Larix.

No Brasil, antes do início, todos os experimentos realizados com transgênicos, tanto em laboratório quanto a campo, devem obter a autorização do órgão competente, para poder ser efetuados. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), criada em 2005, tem por finalidade prestar apoio técnico consultivo e assessoramento ao Governo Federal na formulação, atualização e implementação da Política Nacional de Biossegurança relativa a organismos transgênicos. A comissão ainda é responsável por estabelecer as normas técnicas de segurança e os pareceres técnicos referentes à proteção da saúde humana, dos organismos vivos e do meio ambiente, para atividades que envolvam a construção, experimentação, cultivo, manipulação, transporte, comercialização, consumo, armazenamento, liberação e descarte de OGM e derivados.

Desde sua criação, todas as instituições e empresas públicas ou privadas que desejam fazer pesquisas de laboratório ou a campo com OGMs devem submeter pedido formal de cadastramento de laboratórios ou campos experimentais, seguindo normas estritas de biossegurança. Após o julgamento, a Comissão pode ou não deferir o pedido para a realização dos experimentos. Vários pedidos são submetidos a cada ano para espécies florestais, principalmente espécies do gênero Eucalyptus, os quais são analisados e julgados. Dentre as empresas que já obtiveram permissão para testes a campo com árvores geneticamente modificadas no Brasil, estão Suzano, International Paper, ArborGen, Alellyx Applied Genomics e Monsanto. Os pareceres técnicos e os processos podem ser acompanhados no site da CTNBio, www.ctnbio.gov.br.
 

Experimentos a campo com árvores transgênicas no mundo

Não existem, no mundo, plantios comerciais de árvores transgênicas, com exceção da China. Vejamos o estado atual da pesquisa em diferentes países:

Brasil – No Brasil, os experimentos a campo compreendem estudos com eucaliptos transgênicos, manipulados para rápido crescimento, redução e modificação da lignina para produção de celulose, melhoramento da qualidade da madeira e tolerância a herbicidas. Estes experimentos vêm sendo conduzidos principalmente nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

Estados Unidos – o maior número de experimentos com árvores transgênicas, a campo ou em laboratório, é realizado nos Estados Unidos. Mais de 350 experimentos a campo estão sendo ou já foram conduzidos.

Japão – várias espécies vêm sendo manipuladas geneticamente por cientistas japoneses, entre elas o eucalipto, o cedro japonês, o álamo e a acácia, com diversas finalidades. Alguns experimentos a campo são conduzidos no Japão, enquanto outros são conduzidos no Vietnã e na Indonésia.

Chile – poucas informações são fornecidas a r