O relatório de oferta e demanda mundial de grãos divulgado ontem pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) ditou o rumo dos preços de milho, trigo e soja ontem na bolsa de Chicago. Analistas classificaram como "morno" o documento, já que ele não trouxe surpresas. Mas pelo menos houve um desvio momentâneo das atenções do mercado, que vem sendo norteado sobretudo pela tensão econômica global e por previsões climáticas para o Meio-Oeste americano.
O USDA revisou ligeiramente para cima, em relação ao relatório do mês passado, sua estimativa para os estoques mundiais de passagem de soja da safra 2011/12, que passaram a ser previstos em 53,36 milhões de toneladas. "Havia a perspectiva de maior redução nos estoques finais de soja da safra velha, e esse foi uma das maiores surpresas do relatório", diz Pedro Dejneka, analista da Futures International, em Chicago. Para 2012/13, o USDA reduziu a previsão para a produção mundial de soja para 271,03 milhões de toneladas.
O reforço da previsão de estoques apertados da oleaginosa em um cenário de demanda aquecida, junto às preocupações com o tempo seco nos EUA, estimularam os traders a aumentar os prêmios de risco climático. Assim, na bolsa de Chicago, os contratos para agosto (que ocupam a segunda posição de entrega, normalmente a de maior liquidez) fecharam com ganhos de 2,25 centavos, a US$ 14,0125 por bushel.
No caso do milho, o USDA elevou a estimativa para os estoques finais em 2011/12 para 129,19 milhões de toneladas. Nos EUA, o cálculo para os estoques finais foi mantido em 21,62 milhões de toneladas, uma das poucas surpresas para o mercado. Já a produção mundial em 2012/13 foi revista para cima e passou a 949,93 milhões de toneladas.
Ao reiterar a oferta abundante de milho para o segundo semestre (agravada pela enorme safrinha brasileira), o anúncio do USDA colaborou para a queda da commodity em Chicago. Os papéis para setembro ficaram a US$ 5,2650 por bushel, queda de 14 centavos. Vinicius Xavier, consultor da INTL FC Stone, não acredita que o mercado "comprará" esses dados de produção de milho, porque números divulgados pelo órgão americano na segunda-feira já indicam queda na qualidade das lavouras nos EUA, por conta da seca.
Para o trigo, o USDA promoveu um corte generalizado nas previsões. Os estoques de passagem em 2011/12 foram revistos de 197,03 milhões para 195,56 milhões e toneladas. A redução reflete um pequeno recuo na produção mundial, para 694,17 milhões de toneladas, e um aumento no consumo total. Já para a temporada 2012/13, o relatório rebaixou em 5,5 milhões de toneladas a projeção para a oferta mundial de trigo, para 672,06 milhões de toneladas, diante da estiagem nos EUA, na União Europeia e no Leste Europeu. O USDA espera que o consumo total de trigo também caia, assim como os estoques finais de passagem.
Mesmo assim, os preços recuaram em Chicago. Setembro caiu 13,50 centavos, para US$ 6,3475 por bushel. "Os estoques mundiais são amplos no momento e o cereal tem capacidade de lidar com pequenas ameaças climáticas", disse Dejneka.