Uso contínuo de produtos gera resistência de pragas

Insetos estão deixando de ser controlados por alguns químicos; recomendação para que isto não ocorra é diversificar o tipo de agrotóxico nas aplicações

Juliana Royo
Manejo

A resistência dos patógenos aos produtos fitossanitários é um grande desafio enfrentado pela pesquisa rural. Com o uso cada vez mais constante dos agrotóxicos, os insetos estão se tornando resistentes aos químicos, que perdem eficiência. O grande problema é que o desenvolvimento de novos produtos leva anos, às vezes décadas, e é um processo milionário que envolve gastos muito grande das empresas químicas. Com isso, o produtor está perdendo dinheiro porque aumenta o seu custo de produção comprando agrotóxicos que não funcionam mais e está vendo a sua produtividade diminuir com o ataque das pragas, doenças e invasoras.

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A resistência já está sendo percebida em várias áreas do país. A bulva, que era uma planta dainha até pouco tempo facilmente controlada pelo herbicida glifosato, não está mais respondendo ao produto e já causa danos em várias partes do país, mesmo com a aplicação do herbicida. Outro exemplo é a ferrugem da soja. Os produtores, principalmente do Cerrado, estão tendo problemas com algumas fungicidas que já não conseguem mais controlar a doença. A principal hipótese para o aumento da resistência é a aplicação constante do mesmo tipo de agrotóxico durante um longo período de tempo. A principal recomendação dos pesquisadores é que os agricultores alternem o tipo de químico nas aplicações. Se for necessário fazer três pulverizações na lavoura, que cada uma delas seja feita com um produto diferente, com princípios ativos distintos.

A informação precisa chegar ao produtor e as pesquisas e desenvolvimento de novos produtos precisam ser mais rápidas. Para isso, todo o meio rural deve se unir para enfrentar a resistência dos patógenos. Para discutir esta questão e buscar novas soluções está acontecendo o I Simpósio sobre Manejo da Resistência de Produtos Fitossanitários, que começou dia 1º  e vai até 3 de dezembro, em Piracicaba, São Paulo. O evento reúne pesquisadores e professores, a indústria química e os órgãos reguladores, com a presença dos ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente e da Saúde.

— A resistência de pragas a defensivos agrícolas, é um problema que ocorre desde os meados da década de 60. Conforme foram surgindo produtos mais seletivos e mais específicos contra determinadas pragas, começaram a surgir linhagens resistentes, incluindo insetos, ácaros, plantas daninhas e fungos que já não são controlados por produtos que antes eram bastante eficientes. Todos os setores estão preocupados. As empresas gastam uma grande quantidade de dinheiro para lançar um novo produto, em média custa cerca de R$ 300 milhões de dólares e demora de 10 a 12 anos para ficar pronto — explica o fitopatologista José Octávio Menten, professor da Escola Superior de Algricultura Luiz de Queiróz, da USP e um dos coordenadores do evento.

Outra alternativa levantada pelos pesquisadores para reduzir a velocidade da resistência dos patógenos é a mistura de produtos. Segundo Menten, o ideal era que os produtores misturassem a calda no tanque, mas essa técnica esbarra em um problema de legislação. Um grupo de pesquisadores acredita que misturando dois produtos, o resultado final possa ser um produto com toxidade muito alta e cause danos não só ao meio ambiente, mas deixe resíduos nos alimentos prejudicando a saúde animal e humana. O fitopatologista acredita que esta técnica será uma das principais discussões do evento.

— A indústria está se organizando em comitês, tanto lá fora quanto no Brasil, e procuram fazer monitoramentos constantes para ver se realmente estão surgindo linhagens mais resistentes e discutir quais são as maneiras de se superar este problema. Uma das soluções é solicitar que o processo de registro dos produtos seja o mais rápido possível. Nós temos que pensar na sustentabilidade econômica porque se o produtor aplica um produto que não está funcionando, isso vai fazer com que haja uma redução na produtividade ou fazer com que ele tenha que aplicar um outro produto que vai onerar o custo. Nesse caso, ele tem que lançar mão de algumas alternativas como testar um outro produto ou fazer misturas. Mas a legislação brasileira não esclarece se o produtor pode misturar ou não produtos no mesmo tanque — esclarece Menten.