Alimentar o inseto da praga que destrói a plantação pode soar absurdo no primeiro momento, mas esta é a melhor solução para o viticultor conseguir colher uvas em boas condições. A pérola-da-terra é a principal praga da cultura e a melhor forma de controle é uma surpresa para a maioria dos produtores: conviver e fornecer alimentos ao inseto. O pesquisador Marcos Botton explica que a adubação orgânica é a melhor solução de combate porque, com ela, o inseto tem outras fontes de alimento além das raízes das videiras. Além disso, os inseticidas não são 100% eficazes contra a praga.
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— A primeira medida que o produtor deve tomar é reduzir ao máximo a aplicação de herbicidas, porque quanto mais limpo for o vinhedo mais a planta sofre o ataque da pérola-da-terra. Isto ocorre porque só sobra a planta de videira para a praga se alimentar. Então é importante manter uma cobertura vegetal ao redor do vinhedo. A segunda medida é usar a adubação equilibrada, com ênfase na adubação orgânica. Nós temos observado que em áreas onde o produtor usa adubação orgânica as plantas conseguem suportar mais a ação do inseto — ensina o pesquisador Marcos Botton, da Embrapa Uva e Vinho.
A pérola-da-terra é um inseto do grupo das cochonilhas que se localiza nas raízes das plantas e se alimenta sugando a seiva delas, o que faz com que as plantas morram. Ela é típica do Brasil e surgiu em 1921 na região de Santa Maria no Estado do Rio Grande do Sul. Com a expansão da viticultura pelo país a praga está se alastrando pelo território nacional e se encontra em outras 80 culturas diferentes. O grande problema é que ainda não foi encontrada uma fórmula capaz de eliminar por completo a população do inseto.
O uso de inseticidas só deve ser feito em último caso porque além de não exterminar por completo a praga eles são muito caros. Os inseticidas do grupo dos neonicotinóides têm efeito sobre a pérola-da-terra, mas não têm garantia de 100%. O resto dos químicos não têm efeito por dois motivos. Primeiro porque o corpo da pérola-da-terra é revestido por uma camada de cera, que impede que os produtos penetrem o corpo do inseto. Além disso, ela se localiza nas raízes, abaixo do solo, então é muito difícil faze com que os inseticidas atinjam o inseto.
— Dificilmente existe algum inseticida que vai eliminar totalmente uma população. Quem conhece um vinhedo sabe que as raízes são bem desenvolvidas, elas se espalham, e você encontra a pérola em praticamente todas as raízes. Nós temos conversado com os viticultores para tirar a ideia de que ele vai usar um veneno forte que vai eliminar toda a população porque nós até hoje não conseguimos. Temos experiências em algumas áreas em que o produtor abandonou o cultivo de videiras por 10 anos, usando outros cultivos nesta época, e quando voltou a usar videiras nesta área ocorreu uma reinfestação porque o inseto consegue sobreviver mesmo na ausência das videiras. O produtor tem que aprender a conviver com o inseto fazendo estas práticas de manejo — explica.
O inseto não voa, então ele se espalha através das mudas contaminadas. Quando se leva a muda oriunda de um local contaminado para um novo terreno, o produtor acaba levando junto a cochonilha e ela produz 300 filhotes. Por isso, é extremamente importante o viticultor prestar muita atenção na muda que ele está levando para dentro da sua propriedade. Hoje, é proibido vender mudas com a presença do inseto, mas o viticultor deve sempre verificar a raiz da videira. Se ela apresentar bolinha amarelas do tamanho de um grão de soja significa que a muda tem a pérola-da-terra. Ele deve então queimar esta muda para que ela não contamine os parreiral.
O pesquisador alerta também para o cuidado com a plantação de outras culturas no entorno dos parreirais, isto porque a praga também está presente em outras 80 culturas. O que pode acontecer é que mesmo que o viticultor tome todos os cuidados com as mudas de videira o inseto entre na plantação através de mudas vizinhas.
— É comum produtores cultivarem espécies como a batata-doce no interior do parreiral ou plantarem figueiras e roseiras nas bordas, visando aproveitar o espaço. Estas espécies auxiliam a aumentar a população da praga na área, sendo responsáveis pela reposição do inseto que atacará as plantas de videira — alerta Botton.
A maneira mais simples de identificar o inseto é observar, no início do vinhedo, as plantas mais fracas com baixo desenvolvimento. Botton diz que o produtor deve arrancar estas plantas para olhar a raiz e se ela conter as bolinhas amarelas é sinal de que a pérola-da-terra está presente e é hora de dar condições favoráveis para que ela tenha outros alimentos além da videira.